Presidente da ASL, Henrique de Medeiros, e a Comissão Organizadora, composta por Américo Calheiros, Ileides Muller e Raquel Naveira – Assessoria

Evento fomenta a arte literária no Mato Grosso do Sul

A Academia Sul-Mato-Grossense de Letras premia, nesta quinta-feira, 12, os autores das melhores narrativas enviadas ao Concurso de Contos Ulysses Serra, cuja a edição deste ano foi lançada em setembro para fomentar a arte literária no Estado. Os vencedores receberão valores em dinheiro e serão certificados em evento aberto ao público. São eles: Michelle Eduarda Brasil de Sá (1º lugar) e André Alvez (2º), ambos de Campo Grande, e Oswaldo Francisco Dourado (3º), morador de Três Lagoas.

Conforme o regulamento, Michelle receberá prêmio de R$ 1.500, e os demais ganham R$ 1.000 e R$ 500, respectivamente. Com inscrição gratuita e amplamente divulgado pela imprensa local, o certame permitiu uso de pseudônimo para que os autores não fossem identificados e limitou a inscrição de apenas um conto por pessoa, para maior equidade entre os participantes. Também era necessário ter 18 anos ou mais e residir em Mato Grosso do Sul.

Para chegar aos três melhores contos, uma Comissão Julgadora foi composta por escritores regionais – acadêmicos imortalizados nas Cadeiras da ASL. “Avaliamos a construção linguística e a originalidade, entre os muitos contos que chegaram à Academia, remetidos de várias cidades do Estado”, explica Raquel Naveira, que participou da Comissão ao lado de Rubenio Marcelo e Samuel Medeiros. Já a organização do certame foi realizada pelos acadêmicos Américo Calheiros e Ileides Muller.

“Encerramos a edição 2019 deste tradicional concurso literário com inúmeros textos recebidos, todos em prosa e com boas doses de imaginação”, relata o presidente da ASL, o escritor Henrique Alberto de Medeiros. “Isso nos alegra e motiva a seguir na missão de democratizar a literatura regional, difundindo o que é produzido por aqui”, complementou. Segundo ele, o Concurso de Contos é uma saudável competição que incentiva antigos autores, revela novos talentos a desperta a sociedade para os prazeres da escrita e da leitura.

Criado em 1972, o Concurso de Contos Ulysses Serra presta homenagem ao corumbaense que fundou a Academia de Letras e História de Campo Grande, em 30 de outubro de 1971. Com expressivo número de escritores estaduais, já premiou, em edições anteriores, contos como: “O Santo que não tinha os pés”, de Reginaldo Costa (Campo Grande); “Gato Preto”, de Lilian Jorge (Deodápolis); “Lições de um caminhão de Lixo”, de Mayara Pereira (Dourados).

O objetivo do concurso é sempre descobrir novos valores literários e reconhecer e incentivar os escritores que já atuam nas Letras de nosso Estado.

Terceiro lugar

Título do Conto: “Estranha Nostalgia”

Autor: Oswaldo Francisco da Silva Dourado

Nascido em Penápolis/SP, em 1968, Oswaldo Dourado mudou-se para Campo Grande, aos dezenove anos. Aqui casou-se com Rakel, com quem teve três filhos: Yasmin, Ben-Hur e Vitória. É professor de História, formado pela Universidade Católica Dom Bosco. Iniciou sua carreira no magistério em 1991, na Escola Estadual Maria Eliza Bocayuva Correa da Costa. Em 1999, passou no concurso para o cargo de professor de História em Três Lagoas. Escreveu três livros: Maria Leopoldina: uma professora fora de seu tempo; Vencendo o stress na sala de aula e A igreja cheia de pecados.

Trecho de seu conto surreal, uma homenagem à escritora Clarice Lispector:

“Seu nome era Clarice, a esquisita. De repente, assim do nada, ela chegava, ficava parada enquanto Bernardo conversava com alguém. Primeiro ela os olhava com seus grandes olhos arregalados, imóveis, parecia que ouvia pelos olhos. Depois, aparentemente sem saber do assunto, começava: “coach, tipo assim”. Era um festival de temas variados que ela relatava, relatava. Coisas que pareciam sem sentido para a consciência, mas com sentido para o inconsciente. Só ela falava. Ficavam só ouvindo sem acompanhar direito as suas histórias tão estranhas e tão intrigantes, como aquela que contava sobre os pensamentos da barata ao ser descoberta por sua mãe. Todos ficavam absorvendo, estáticos. Todos “insetos”. Ela os dominava, e eles não sabiam bem o porquê de se deixarem ser dominados. Achou que havia um poder exercido sobre os mesmos porque simplesmente não se moviam. Ficavam ali parados, sem reagir, sendo apenas lentamente devorados por suas palavras, sofrendo: aflitos, parados, imóveis. Era uma irritação momentânea que se dissolvia rapidamente ao sabor das histórias que quase sempre não eram completamente entendidas no momento contado, mas depois, quando o subconsciente as traduziam aos poucos, era – mágico, inspirador – a parte que ele mais gostava. Sempre que Clarice contava suas histórias, Bernardo sentia que sua mente era roubada naquele instante e premiada após.

Segundo lugar

Título do Conto: “O Sonho da Orquídea

Nome autor: André Luiz Pereira Alvez

Nascido em Campo Grande/MS, em 1968, formado em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda, cronista do jornal Correio do Estado e de vários blogs. Casado com Graziela, pai de Andreza e Bruno, avô do Tom. Escreveu os romances No Pantanal não existe Pinguim, O Santo de Cicatriz, A Bruxa da Sapolândia, Crônicas da Cidade e participou da coletânea Nossas Crônicas.

Trecho de seu conto metalinguístico, com gosto dos que amam os livros e as lembranças:

“O dia passou depressa. No retorno, as luzes da cidade estavam opacas e um vento repentino trazia o cheiro de chuva. De novo o livro numa das mãos, a outra mão segurando o ferro da sustentação, um breve sorriso abraçando a imagem no pensamento: George Sand enxergava o sorriso das flores nos campos encharcados enquanto Chopin tocava piano após a tempestade.

Novamente em casa, se deparou com as paredes tomadas de uma inesperada cor de avelã. Se deteve num olhar sob a paisagem escura, em volta tudo coisa gasta. Demorou mais que o habitual para encaixar a chave na fechadura, assombrada pelas flores do jardim, envoltas numa cor de pólvora. Tateou a parede até encontrar a tomada da luz, mas a escuridão permaneceu em volta até limpar os óculos, a quietude quebrada por pequenos ruídos, a gaveta se fechando levemente na cozinha, a porta da geladeira se abrindo, a fumaça do cigarro desenhando um círculo marrom e, num costumeiro arrepio, sentiu o medo kafkiano de se transformar numa barata. Ao menos as baratas podem voar e desconhecem as cores das flores – pensou em meio a um sorriso tossido.

No fim daquela noite caiu uma chuva fininha, que foi aumentando até se tornar temporal e Eleanor enxergou quase nada, apenas a janela baça segurando os pingos fortes que lhe batiam num tamborilar nervoso.

No clarão do relâmpago, lá fora, a flor com cara de macaco sorria para ela.”

Primeiro lugar

Título do Conto: “Atavanado”

Nome da autora: Michele Eduarda Brasil de Sá

Nascida em 1976, Doutora em Letras Clássicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora da Faculdade de Letras da UFRJ, em exercício provisório na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Casada com Ednaldo, mãe de Samuel e Benjamin. Participou de vários concursos de contos, obtendo o primeiro lugar no “IX Concurso Contos do Tijuco” com o conto “O Cheiro do Pão”. Escreveu o livro A Imigração Japonesa no Amazonas à Luz da Teoria das Relações Internacionais, monografia publicada pela Universidade do Amazonas.

Trecho de seu conto que trabalha com a curiosidade infantil e o significado arbitrário das palavras:

“- Mãe, o que é “atavanado”?

– “Atavanado”? Onde você viu essa palavra?

– Falaram na televisão. O que é que é isso?

A mãe franziu a testa e ficou pensando na resposta que daria. O natural “não sei” simplesmente não veio.

– Ah, filho, “atavanado” é uma palavra pouco usada, acho que é coisa de quem fica falando difícil. Eu acho que quer dizer, assim, “enfeitado”, “arrumadinho”.

– Ah, é?

– Sei lá. Acho que já li esse negócio em algum livro na escola. Daqueles de José de Alencar… Ou foi Machado de Assis? Nem me lembro… Faz tanto tempo.

O garoto olhava com desconfiança. Ficou pensando como este significado se encaixaria no contexto de onde ele sacou a pérola.

– Mas o programa falava de “cavalo atavanado”. Sei não… Não acho que era um cavalo “enfeitado”, não.

Era a quarta vez que a mãe passava pela fase da curiosidade infantil e já não tinha a paciência de antes, ainda mais porque o terceiro filho já tinha quase doze anos. Melhor mandar o pequeno procurar o pai.” 

Serviço

Concurso de Contos Ulysses Serra – Edição 2019

Inscrição: de 09/09 a 09/10 (gratuita)

Resultado: 28/11

Premiação: Evento dia 12/12

1º lugar: R$ 1.500 – “Atavanado”, de Michele Eduarda Brasil de Sá (Campo Grande)

2º lugar: R$ 1.000 – “O sorriso da orquídea Rosa”, de André Alvez (Campo Grande)

3º lugar: R$ 500 – “Estranha Nostalgia”, de Oswaldo Francisco da Silva Dourado (Três Lagoas)

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