Criatividade na ciência contribui para inovação e aumento da eficiência no setor privado

Crédito: Victor Otsuka

A contribuição da criatividade científica com impacto na inovação e no setor privado, a ponto de mudar a forma de precificação de uma cultura tradicional da região Norte do Brasil, o dendê. Pouco mais de três décadas depois de começar a utilizar a técnica de Ressonância Magnética Nuclear nas pesquisas da Embrapa Instrumentação (São Carlos – SP), ainda nos anos 80, é isso que o pesquisador Luiz Alberto Colnago constata nos dias de hoje.

Mas para chegar à essa situação foram necessários anos de pesquisa com RMN, até então uma técnica muito utilizada na medicina, e o desenvolvimento de várias metodologias para analisar produtos in natura e industrializados sem destruir a amostra, em segundos, de forma limpa, sem o uso de solventes, como ocorre nos métodos tradicionais.

Além disso, outro passo decisivo para que os resultados obtidos em laboratório chegassem ao mercado foi a parceria com a iniciativa privada. O know-how da Fine Instrument Techonology (FIT) na área médica contribuiu para que a técnica de RMN fosse incorporada ao equipamento Specfit, para avaliação de produtos agroalimentares.

“Apostamos no aparelho de RMN, que proporcionou uma margem de segurança acima de 90%, muito melhor que trabalhar com métodos convencionais nos quais há grandes desvios. O aparelho ajudou muito a empresa na classificação dos frutos”, conta o produtor da oleaginosa e empresário Roberto Yokoyama.

Atrás de inovações sustentáveis para melhorar o rendimento da extração do óleo de palma, ele percorreu longas distâncias dentro e fora do País até encontrar a solução. O salto tecnológico da Dendê do Pará S.A (Denpasa) ocorreu com a adoção do Specfit, que reduziu o tempo de análise de dois dias para poucos segundos e levou a empresa a ter um ganho de eficiência de 6% -em média – na extração do óleo.

Tecnologia melhora a eficiência

A convergência tecnológica e de conhecimento introduziu uma nova rotina na usina, que beneficia anualmente 90 mil toneladas de dendê. Com a rapidez proporcionada pelo método de RMN, a Dendê do Pará S.A otimizou o controle de qualidade dos processos de extração e passou a fazer a coleta de hora em hora dos pontos de geração de resíduos, entre eles, borra, efluentes, cachos vazios, fibra da prensa.

O controle ajudou a usina a detectar falhas em pontos exatos do processo, possibilitando tomadas de decisões imediatas, como regulagem dos equipamentos, melhorando a eficiência da empresa. “Alcançamos 92% de eficiência, preconizados pela literatura, contra os 85 ou 86% obtidos anteriormente. Esse foi o maior benefício na aquisição do aparelho de RMN”, contabiliza.

Como conseqüência da adoção da tecnologia, o engenheiro agrônomo Yokoyama mudou uma prática tradicional na precificação do dendê. A compra passou a ser realizada pelo teor de óleo e não pela massa do fruto, como se fazia anteriormente.

A colheita nem sempre é realizada no momento ideal, fato que leva as empresas a receberem frutos em diferentes graus de maturação e, portanto, com diferentes teores de óleo, que pode variar de 9%, cacho verde, a 23%, cacho maduro.

“Essa era a única forma de premiar os melhores produtores e promover melhorias na cadeia produtiva”, ressaltou o empresário, que antes utilizava um método mais demorado, de baixa precisão e difícil calibração, além de usar solvente que destrói a amostra.

“Se não tivesse o Specfit faríamos bem menos análises e estaríamos trabalhando às cegas”, diz Yokoyama que produz dendê em dois municípios paraenses – Santa Bárbara do Pará e Santo Antonio do Tauá – o híbrido BRS Manicoré, desenvolvido pela Embrapa. 

Três continentes

“Vários setores de diversas indústrias podem se beneficiar da tecnologia e com a parceria com a Embrapa a FIT vêm disponibilizando soluções para a indústria do agronegócio e de alimentos”, diz Silvia Azevedo, CEO da empresa Fine Instrument Technology, que já exportou a tecnologia para a Alemanha, Holanda, Malásia e Colômbia.

“Destacamos o potencial para os mercados de seleção de sementes como amendoins e sojas com teor alto de ácido oleico; empresas que atuam no beneficiamento de grãos e oleaginosas; ou ainda fabricantes de produtos industrializados como pães, biscoitos, chocolates, margarinas que precisam realizar a análise do perfil de gorduras sólidas”, acrescenta a empresária.

“É sempre uma satisfação saber que uma técnica que desenvolvemos está incorporada em um aparelho de uma empresa brasileira, que está proporcionando a melhoria de processo em agroindústrias nacionais e internacionais, com aumento do rendimento das fábricas e redução de rejeitos. Esse é o sonho de qualquer pesquisador, ver que seu trabalho de muitos anos está dando retorno econômico, social e ambiental”, afirma Luiz Colnago. 

Criatividade e Inovação no DNA

A preocupação com o impacto econômico, social e ambiental tem marcado a trajetória da Embrapa Instrumentação em soluções tecnológicas como a nanoemulsão de cera de carnaúba, o nanossensor de baixo custo para rastreamento e monitoramento da qualidade de frutas, a sonda nacional para avaliação de parâmetros da água de viveiros para cultivo de organismos aquáticos ou ainda o equipamento para análise de solos em larga escala de forma limpa com laser e inteligência artificial.

“O pensamento multidisciplinar criativo nos níveis individual e de grupo – que motivou a comemoração do Dia Mundial da Criatividade e Inovação em 21 de abril, a partir de uma resolução da ONU com o apoio de 80 países – é algo que buscamos praticar desde o início de nossas atividades há 35 anos, o que pode ser constatado nas inovações citadas anteriormente”, explica o chefe-geral da Embrapa Instrumentação, João Naime.

Engenheiro eletrônico integrante de uma equipe com físicos, químicos e engenheiros com formações diversas, Naime lembra de soluções desenvolvidas pelo Centro de Pesquisa que dirige e que necessitaram de muita criatividade para atender a problemas específicos, cujo reconhecimento ocorreu com a concessão de cartas-patente pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

“Desenvolvemos o instrumento para avaliação da capacidade de expansão do milho pipoca, utilizado em processos de melhoramento genético; o sistema para termometria contínua à distância para ninho de jacaré, com o intuito de contribuir no monitoramento da espécie no Pantanal; ou ainda  o sistema integrado para análise de raízes e cobertura do solo, um dos softwares pioneiros na ajuda ao produtor rural para compreender melhor os locais de plantio”, explica.

“Por isso, a comemoração a partir de 2018 de uma data que busca conscientizar sobre a importância da criatividade e da inovação na solução dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável propostos pela Organização das Nações Unidas é muito representativa para a pesquisa agropecuária, que procura contribuir para a concretização dessas metas com conhecimento, ciência básica e aplicada de alto nível”, finaliza João Naime.