Edwin durante exame oftalmológico – Foto: Assessoria/SES

Uniformizados com camisetas amarelas, os funcionários da Caravana da Saúde chamam a atenção de quem chega na estrutura montada no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul Rosa Pedrossian. Mas o que atrai os olhares não é apenas a roupa de cor vibrante, mas também o carinho empenhado no trabalho diário e humanizado. Entre as carretas do mutirão oftalmológico, é possível também encontrar colaboradores de uniforme cinza, mas a cor não importa, já que o respeito pelos pacientes é de impressionar até mesmo quem não enxerga mais. E o motivo de tanto amor gratuito? Os funcionários explicam que é genuíno; cada um se colocando no lugar do outro.

“Trabalhamos como se fosse pelos nossos pais, nossos avós. O cuidado é realmente especial e todos são tratados iguais”, disse Wellignton Pereira, 45 anos. Com os olhos cheios d’água, ele se emociona em falar das pessoas que saem das carretas enxergando o que já não viam há mais de anos.

“As histórias são emocionantes. O projeto (Caravana) traz um alívio imenso para essas pessoas. Traz felicidade em coisas tão simples, mas que para eles é tudo. Eu me emociono em falar porque ver pessoas que estavam cegas e de repente passam a enxergar. Procuramos fazer o melhor”, disse Wellington.

O reconhecimento de quem é atendido na Caravana é tão grande que os presentes veem em forma de agradecimento. “Eu já ganhei um perfume e um bolo. A mulher me disse: ‘Você dá muita atenção às pessoas, posso te dar um presente? Você aceita?’. Eu aceitei de todo coração, claro”, contou Eder Cáceres, pela primeira vez trabalhando na Caravana da Saúde.

Éder acredita que o trabalho no projeto lhe trouxe muitos benefícios. “Garanto que me tornei uma pessoa melhor, sem dúvida. Temos tudo, braço, perna, olhos. A maioria está sem enxergar há mais de cinco anos e tudo por uma bobeira”, lembra ele.

Éder ajuda paciente pós cirurgia

A irmão de Éder, Ana Beatriz Cáceres, 18 anos, também se aventurou pela primeira vez no programa regional de saúde, criado pelo Governo do Estado e que teve início em 2015. Já na estreia, a jovem levou um presente para casa. “Eu ganhei um chaveiro de São Jorge de uma pessoa que passou por aqui. As pessoas são muito queridas. É maravilhoso. É cada história emocionante. A gente aprende muita coisa. Eles vão falando da vida deles e a gente vai aprendendo”, disse.

Durante a entrevista, a paciente Maria Conceição fez questão de interromper para elogiar “os amarelinhos”. “Ela (Ana Beatriz) é muito bem humorada. Ninguém fica de mau humor perto dela. Todos eles são incríveis”.

Engrossando o discurso de elogios, Ivanil de Souza, fez questão de enaltecer o trabalho dos funcionários enquanto aguardava a cirurgia de catarata. “O atendimento é mil. Atenção maravilhosa e eles não fazem diferença com ninguém. Pode ser feio, bonito novo ou velho, o tratamento é o mesmo. Só tenho elogios a todos. A gente sai daqui curado, já que o tratamento também é o diferencial”, avaliou.

Vindos de lugares distantes, ou mesmo da Capital, os funcionários passam o dia na Caravana e realizam os mais diversos tipos de atendimento, que vão desde cadastro de pacientes até a paramentação e auxilio no pós cirurgia. Quase 100% deles não possui formação na área da saúde, mas independente disso todos se empenham para que o processo resulte em um único final: a satisfação dos pacientes.

“Eu sempre trabalhei com público. Já fui atendente de padaria, trabalhei em empresa de telefonia e até no Tribunal de Justiça do Trabalho. Quando eu soube dessa oportunidade achei bem interessante. É a minha primeira vez na Caravana.  Tem horas que o cansaço bate porque chegamos bem cedo, mas vale a pena”, contou Laiza Claudino, 22 anos.

Para ela o bom humor é a chave do sucesso. “Eu brinco com eles o tempo todo. Talvez eu não lembre desses pacientes depois, mas quem foi bem tratado, com certeza vai lembrar, a pessoa não esquece. Não tive nenhuma reclamação, acho que estou no caminho certo. Fomos treinados para estar sempre com sorriso no rosto e atender sempre da melhor maneira possível. Eu às vezes brinco: ‘senta do lado dessa moça bonita’, e na verdade já é uma senhora, mas eles adoram”, se diverte Laiza.

Veterano na Caravana da Saúde, Edwin Mateus, 24 anos, participou da edição de 2016 quando o projeto passou por sua cidade natal, Ponta Porã. Farmacêutico por profissão, Edwin já trabalhou na empresa 20/20, que oferece a estrutura (carretas de atendimento) da Caravana, mas se desligou para estudar. Dessa vez, de férias do trabalho, ele aproveitou para participar do projeto novamente.

“É muito satisfatório ver o processo todo, ver o seu trabalho dando certo e as coisas fluindo. Tem pessoas que estão há três anos na fila do SUS (Sistema Único de Saúde) e saem daqui enxergando e isso é compensador”, disse o jovem que já foi à Bahia, São Paulo e Tocantins com a empresa 20/20.

Alguns dos funcionários trabalham como freelancers e outros são contratados, como o Marcos Aurélio Jesus de Santana. Baiano, de Salvador, ele já passou por todas as Caravanas da Saúde realizadas em Mato Grosso do Sul. Há anos na empresa, ele não mede esforços para garantir a organização dos mutirões. Apesar de estar acostumado com tantas histórias sofridas, a emoção ainda está presente quando fala dos “milagres” que a caravana realiza.

“Não tem dinheiro que pague ver a pessoa saindo do centro cirúrgico, chorando, e parece até que fizemos um milagre. Não tenho dinheiro que pague. Ficamos emocionados em ver essas pessoas sorrindo feito criança”, disse Marcos.

Caravana da Saúde

A Caravana da Saúde, que acontece no Hospital Regional desde o dia 17 de junho, termina na próxima sexta-feira, 05 de julho. Nessa edição foi ofertada apenas a especialidade oftalmológica e foram realizadas cirurgias de catarata, pterígio, yag laser e vitrectomia. O número de cirurgias feitas na Caravana superou a meta inicial do programa de realizar 2 mil intervenções cirúrgicas. Foram feitas mais de 3 mil procedimentos cirúrgicos, sendo a maioria de catarata. Aconteceram também quase 9 mil consultas oftalmológicas e mais de 38 mil exames.

As 79 cidades do Estado foram contempladas e Demandas espontâneas de pacientes que procuram a Caravana também serão atendidas, conforme a regulação.

O maior programa regional de saúde foi criado para zerar filas de espera no Sistema Único de Saúde (SUS), dando acesso a consultas, exames e cirurgias a pacientes que aguardam há anos por diversos procedimentos.