quarta-feira, 13 - maio - 2026 : 13:23

Espetáculo de dança “Corpo Sobre Penas” estreia no Hotel Gaspar em Campo Grande

A performance “Corpo sobre penas”, do artista Halisson Nunes, estreia nesta sexta (8) e sábado (9) convidando o público a pensar sobre a seca e a lentidão como reflexão sobre a vida contemporânea.

Corpo Sobre Penas” terá sessões na sexta (8) e no sábado (9) no Hotel Gaspar em Campo Grande – Crédito: Lunar Fotografia

Entre o que falta e o que resiste, um corpo se constrói na linearidade do tempo. É nesse território de atravessamentos que nasce a performance de dança “Corpo Sobre Penas”, nova criação do bailarino sul-mato-grossense Halisson Nunes, que estreia em Campo Grande nesta sexta (8) e sábado (9), às 19h30, no Hotel Gaspar que fica na Avenida Mato Grosso, n.º 2, centro de Campo Grande. A entrada é gratuita, com arrecadação de 1kg de alimento não perecível ou item de higiene, destinados à Central Única das Favelas (CUFA) da Capital.

Inspirado nos clássicos “Vidas Secas”, do escritor Graciliano Ramos, “Retirantes”, do pintor Cândido Portinari, e na figura de Frankenstein da escritora Mary Shelley, a intervenção artística não busca narrar essas referências, mas extrair delas uma estética: corpos fragmentados, em deslocamento e constante reconstrução em meio às adversidades.

“A inspiração não vem como dramaturgia, mas na plasticidade em si. Aqui a proposta não é reproduzir a figura de cada obra, mas a força e a ideia de movimento e de tempo que as imagens carregam”, garante Halisson.

Com duração de 40 minutos e classificação livre, a obra propõe uma experiência sensorial que atravessa dança, artes visuais e literatura para investigar corpos em transformação — marcados por ausência, resistência e reinvenção. Além das apresentações, o projeto realiza uma roda de conversa no domingo (10), às 10h, ampliando o diálogo sobre o processo criativo. Haverá um café da manhã para recepcionar os participantes.

Corpo sobre Penas – Partindo do projeto “Corpo Fantasma – Protótipo A”, o espetáculo propõe um corpo atravessado por ausência, excesso e tentativas de reorganização no mundo contemporâneo. Ao acionar imagens da literatura e das artes visuais, a performance constrói uma poética onde o corpo não representa — ele resiste.

Em cena, o público encontra um corpo que se reorganiza diante da escassez. “É um corpo que se constrói no espaço, atravessando estímulos sensoriais e propondo a lentidão como gesto de resistência e diálogo com a plateia”, afirma o artista.

A performance é assinada em parceria com o esquizoanalista, produtor musical e artista de São Paulo, Fernando Martins, que também assina a trilha sonora. O processo de criação se desenvolveu ao longo de meses, em um intercâmbio interestadual – Mato Grosso do Sul e São Paulo – combinando encontros presenciais e investigações à distância entre os dois artistas.

“Hoje o trabalho está em um estado mais fino de lapidação. Não buscamos mais o que fazer, mas como sustentar o que emergiu”, afirma Fernando. A trilha, segundo ele, atua como elemento dramatúrgico. “O som não acompanha a cena — ele interfere. Afeta decisões, ritmo e presença”, afirma Fernando, que é diretor artístico do trabalho.

De forma sutil, a performance também é atravessada pela pesquisa “Brain Diving” e “Dieta Aranha”, desenvolvida há mais de dez anos pelo próprio Fernando Martins. “Brain Diving e Dieta Aranha constituem práticas de criação que entendem o corpo como campo de captação e organização de forças, e como lugar onde se dão os encontros com as forças que nos atravessam e nos modificam: enquanto o Brain Diving opera como um mergulho nas camadas articulares e musculares, ativando respiração, impulsos e micro dinâmicas internas, a Dieta Aranha investiga possibilidades de relação que geram nossas ações; nela, a suspensão do tempo, o estiramento do movimento e a espreita configuram modos de perceber, conectar e compor com o ambiente”, explica.

Essa camada conceitual aparece de maneira delicada em cena, influenciando a forma como o movimento se constrói e se sustenta. “Conhecer o trabalho do Fernando amplia o campo de criação. Existe algo dessa pesquisa que atravessa a performance de maneira sensível, mesmo que não seja explícito”, comenta Halisson.

Palco: memória e travessia – Mais do que cenário, o Hotel Gaspar também é parte da narrativa. Inaugurado na década de 1950, o espaço foi um dos principais pontos de chegada e partida da cidade, abrigando histórias de viajantes e novos começos — um contexto que dialoga diretamente com a ideia de deslocamento presente no espetáculo.

Conhecido como o “pai dos viajantes”, o hotel funcionou como a primeira rodoviária de Campo Grande e, por décadas, foi palco de encontros, despedidas e transformações. Atualmente desativado, o espaço reabre de forma pontual para receber o projeto.

Para a proprietária, Chris Gaspar, a decisão de acolher a obra também carrega um significado especial. “O Halisson chegou com muito cuidado e respeito pela história do lugar. Isso fez toda a diferença”, afirma ela em tom de despedida. “Este vai ser meu último evento à frente do hotel, em função da logística. Contudo, gostaria que o poder público pudesse manter este legado, abrindo o hotel como espaço para cultura da cidade – com eventos, saraus, biblioteca”.

O projeto “Corpo Fantasma – Protótipo A” conta com financiamento do FMIC – Fundo Municipal de Investimentos Culturais, da Fundac – Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande, vinculada à Prefeitura da Capital. Acompanhe o trabalho pelo Instagram (@umcorposobrepenas).

Artistas

Halisson Nunes é acadêmico do curso de Dança – Licenciatura na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e tem uma pesquisa de dois anos, indo para o terceiro, no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), onde propõe imagens e texto como dispositivos de criação cênica e atualmente tem relacionado com os territórios direcionando para patrimônios históricos com objetivo de preservação das memórias da cidade de Campo Grande (MS). Participa do grupo de pesquisa GPPED – Linha de pesquisa Corpo, Leitura e Memória com orientação de Rosana Baptistella. O dispositivo de imagens na pesquisa são as obras “Retirantes”, de Portinari, e “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, que deu origem ao projeto “Corpo Fantasma” de sua autoria.

Fernando Martins é artista da dança com 39 anos de trajetória, atuando entre coreografia, produção sonora e pesquisa do corpo. Desenvolve investigações que articulam movimento, música e dramaturgia, com destaque para as pesquisas “Brain Diving” e “Dieta Aranha”, que pensam o corpo como campo sensível, conectado e em constante adaptação. Colaborou com companhias nacionais e internacionais, como Galili Dance, Quasar e Balé da Cidade de São Paulo. Atualmente vive em Piracaia (SP), onde conduz processos criativos na Casa Ateliê. Sua atuação também se estende à criação de trilhas sonoras e à condução de workshops e residências artísticas com forte colaboração em Mato Grosso do Sul.

Serviço:

Projeto Corpo Fantasma

Local: Hotel Gaspar

Endereço: Av. Mato Grosso, n.º 2 – Centro de Campo Grande

Estreia do espetáculo “Corpo sobre penas”

Data: Sexta (8) e sábado (9)
Horário: 19h30

Entrada gratuita (1kg de alimento ou item de higiene para doação)

Roda de conversa – processo criativo

Data: Domingo (10) – Roda de conversa com café da manhã às 10h

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