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Embrapa
Mato Grosso do Sul, Segunda-Feira, 26 de Abril de 2010
Associativismo entre vendedores de leite em MS: melhor para o bolso do produtor e para a saúde do co

Karina Neoob de Carvalho Castro*
Éder Comunello - Pesquisador de Embrapa Agropecuária Oeste**



O associativismo no meio rural proporciona condições para que seus integrantes façam frente aos grandes empreendimentos, aumentando o volume de comercialização e, consequentemente, seu poder de negociação. Além disso, favorece o acesso a políticas públicas e novas tecnologias. Uma experiência bastante particular e promissora é vivida pelos produtores e vendedores ambulantes de leite de Dourados e região.

No Brasil, estima-se que entre 29 e 30% do leite comercializado seja informal ou clandestino, sendo vendido diretamente ao consumidor sem qualquer garantia de que atendam às condições mínimas de higiene. O consumo de leite informal pode levar a transmissão de doenças infectocontagiosas como brucelose, tuberculose e salmonelose, entre outras, além de poder veicular toxinas. Muitas vezes, este leite fica exposto à temperatura ambiente por muito tempo até ser vendido, o que favorece a multiplicação de microorganismos e gera riscos à saúde do consumidor.

Para garantir mais segurança ao consumidor, são instituídas normas e leis que regem a produção e o processamento do leite. A venda de leite cru para o consumo direto da população é proibida em todo território nacional desde 1969. Em 2002, foi publicada a Instrução Normativa no 51 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que estabelece que o leite deve ser resfriado a quatro graus celsius em até três horas após a ordenha, como uma das exigências que o produtor deve cumprir.

Com o intuito de adequar-se às normas de qualidade de produção leiteira e atender às demandas dos consumidores de Dourados e região, em 2003, após diversas reuniões, 90 vendedores ambulantes de leite instituíram a Associação dos Vendedores Ambulantes de Leite (Avaleite). Atualmente, a associação conta com 38 participantes, residentes nos municípios de Dourados e Itaporã, sendo que metade deles, além de vendedores, são produtores de leite.

Há de se considerar o alto custo envolvido em empreendimentos desta natureza. Para a implantação da Avaleite foi necessário contar com o apoio de recursos federais e municipais. A Prefeitura de Dourados foi responsável pela doação do terreno e construção da estrutura de beneficiamento. Além disso, a prefeitura garante o pagamento mensal dos gastos com energia elétrica (cerca de R$ 6 mil) e cede dois funcionários para realizar a guarda de segurança da associação. A madeira para a alimentação da caldeira também é fornecida pela prefeitura, sendo originada da poda das árvores do município .

Programas do Governo Federal, por sua vez, foram fundamentais para a aquisição de máquinas e equipamentos. Entre os equipamentos que a Associação possui atualmente estão: caldeira, resfriador (5 mil litros), pasteurizador, empacotadeira (2 mil l/h), câmara fria, banco de gelo e crioscópio. Quatro geradores são utilizados para funcionamento do maquinário.

Outros investimentos ainda são necessários, sendo urgente a instalação de um transformador, visando atenuar o grave problema da constante oscilação de energia na região. Devido a este problema é comum ocorrerem danos ao maquinário e, consequentemente, prejuízos financeiros.

Além dos funcionários cedidos pela prefeitura local, mais sete trabalhadores compõem o quadro de funcionários da associação, sendo responsáveis pelo processo de recebimento e beneficiamento do leite.

Com todo o apoio recebido, chega-se a um custo de 22 centavos por litro de leite para que o mesmo seja resfriado, pasteurizado, embalado e acondicionado em câmara fria. O pagamento do beneficiamento é feito mensalmente através de boleto bancário. Os registros de entrada e saída de litros de leite são feitos individualmente, sendo que a Avaleite recebe em média 4,5 mil litros do produto por dia.

A comercialização e entrega do leite processado e embalado é, em princípio, de responsabilidade de cada associado. Após a retirada do produto, ele é vendido nas residências por R$ 1,50 e no comércio local por cerca de R$ 1,20. O leite não retirado para a venda direta gera um excedente que é vendido a granel (sem empacotar) para laticínios da região. Neste caso, cada litro é comercializado por valores entre 45 e 60 centavos, de acordo com a época, sendo estes valores repassados aos associados.

Uma vez que a associação não tem fins lucrativos, o custo repassado aos associados é utilizado quase que unicamente para quitar as despesas da associação. Após o pagamento das despesas, que inclui financiamentos adquiridos, trabalha-se com uma sobra de caixa em torno de R$ 1 mil destinado às despesas eventuais.

Rotina
A rotina diária de beneficiamento do leite é iniciada pelo controle de qualidade. Para tanto são empregados os testes de alizarol, Dornic e crioscópico. A estabilidade ao alizarol é uma prova rápida, muito empregada nas plataformas de recepção como um indicador de acidez e estabilidade térmica do leite. O resultado positivo no teste, dado pela formação de um precipitado, indica aumento na acidez do leite causada pela ação de bactérias sobre a lactose, produzindo ácido láctico. Porém, a confiabilidade deste teste é questionada, visto que o estágio de lactação, a estação do ano e as alterações na dieta animal podem levar a resultados falso-positivos mesmo com leite de boa qualidade. Por conta disso, muitos associados questionam o teste do alizarol na época de seca alegando alterações na alimentação dos animais. Contudo, não pode ser descartada a possibilidade real de problemas com acidez e estabilidade. Portanto, quando há resultado positivo no teste do alizarol, o leite não é processado, sendo devolvido ao associado para ser descartado. Neste caso, o associado é orientado a avaliar o manejo da ordenha e dos animais em sua propriedade como um todo.

Os meses de maio a setembro são identificados como aqueles com menor entrada de leite para beneficiamento pela associação havendo, muitas vezes, quantidade insuficiente para atendimento da demanda rotineira. Isto se dá devido à estiagem, normal neste período, e agrava-se com a ocorrência de geadas. Diante disso, para manter a regularidade de oferta e atender seus consumidores nesta fase, a saída adotada pela Avaleite é a compra de leite de outros laticínios in natura ou mesmo já pasteurizado.

Associativismo
O associativismo gera um ganho para todos. Neste caso, para o poder público os recursos investidos trarão benefícios pela redução de gastos com a saúde pública levando em conta que os consumidores têm acesso a um produto de melhor qualidade e que oferece segurança. Além disso, a Avaleite gera direta e indiretamente número significativo de ocupações para os trabalhadores contribuindo com a atividade leiteira e a manutenção do produtor no campo.

Para a Avaleite o caminho do associativismo tem sido imprescindível e estratégico para sua sobrevivência e melhoria da competitividade frente ao mercado.


*pesquisadora de Embrapa Agropecuária Oeste, Dourados (MS), telefone (67) 3416-9700, e-mail karina@cpao.embrapa.br
**pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, e-mail: eder@cpao.embrapa.br


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