Armando Jorge Junior, chefe do Setor de Farmácia Hospitalar do HU-UFGD - Divulgação
Armando Jorge Junior, chefe do Setor de Farmácia Hospitalar do HU-UFGD – Divulgação

Farmacêutico do HU-UFGD fala sobre desafios da profissão e alerta para os riscos da automedicação

Na Internet tem de tudo. Inclusive bula de remédio, com indicação de uso e todas as demais informações. E o problema não está em esse tipo de informação estar disponível, mas sim na maneira como as pessoas utilizam esses dados, de acesso cada vez mais rápido e mais fácil. E se tem a internet para dizer tudo sobre os remédios que o médico prescreveu, ou até para descobrir uma “novidade” no tratamento de uma doença, para que o farmacêutico? “Aí é que está o perigo”, alerta Armando Jorge Júnior, chefe do Setor de Farmácia Hospitalar do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (HU-UFGD), lembrando que a automedicação é uma prática que pode causar sérios danos à saúde.

De acordo com Armando, nos últimos anos a profissão de farmacêutico tem enfrentado grandes desafios, e entre eles está o de atuar com responsabilidade social, tendo um olhar mais humanizado e voltado à prevenção e ao cuidado com as pessoas e o meio ambiente. “O farmacêutico tem o embasamento técnico e científica para orientar sobre o uso correto e os riscos da má utilização dos medicamentos. Mas o amplo acesso ao conhecimento também implica que as pessoas sejam mais responsáveis com a própria saúde e com as questões ambientais, como no caso do descarte adequado dos medicamentos”, comenta.

Para responder a perguntas corriqueiras e esclarecer dúvidas como, por exemplo, sobre os cuidados com aquela “farmacinha” que todo mundo tem em casa, Armando é o convidado desta edição da Entrevista do Mês, realizada pela Unidade de Comunicação Social (UCS) do HU-UFGD. Confira:

UCS/HU-UFGD – Dia 25 de setembro é o Dia Internacional do Farmacêutico. Qual a importância da atuação desse profissional numa época marcada pela velocidade e a facilidade de acesso às informações, inclusive sobre o uso de medicamentos?

Armando – Realmente, o acesso à informação tem ocorrido cada vez mais rápido e a públicos cada vez maiores. No entanto, especialmente na área da saúde, é necessário ter cuidado e discernimento, especialmente em função da adequação dessas informações e dos incontáveis mitos propagados. É neste cenário que a atuação profissional do farmacêutico ganha importância, pois com embasamento técnico-científico podemos auxiliar a população quanto ao uso adequado de medicamentos, contribuindo para o sucesso nos tratamentos, e também quanto aos riscos e problemas relacionados aos medicamentos, também conhecidos como eventos adversos ou “efeitos colaterais”. De dez anos para cá, a profissão do farmacêutico vem se diversificando e aumentando em qualidade técnico-científica, além de adotar um olhar mais humanizado, focado no conhecimento científico mas, cada vez mais, consciente de suas responsabilidades sociais. O farmacêutico tem atuado para garantir o adequado acesso da sociedade aos medicamentos e a serviços cada vez mais voltados ao cuidado e à prevenção, por entender a importância disso para o bem-estar das pessoas.

UCS/HU-UFGD – Quais os maiores riscos da automedicação?

Armando – O mau uso de medicamentos pela população é um problema fortemente enraizado no Brasil e pode causar sérios danos à saúde dos usuários. Uma das mais antigas atividades do ser humano é a de buscar, principalmente entre as plantas, a cura de doenças. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX/Fiocruz), o uso inadequado de medicamentos permanece como a primeira causa de intoxicação humana, com mais de 22 mil casos em 2014. O uso inadequado de medicamentos pode levar ao agravo de doenças. Se o medicamento for um antibiótico, a atenção deve ser redobrada, pois o uso abusivo destes medicamentos tem sido associado ao aumento da resistência microbiana, cada vez mais presente e se mostrando um grave problema de saúde pública. O uso indevido de medicamentos considerados “inofensivos” pode levar a consequências como resistência bacteriana, reações de hipersensibilidade, dependência, sangramento digestivo, sintomas de retirada e aumentar o risco para as neoplasias. Além disso, o alívio momentâneo dos sintomas pode “esconder” a doença de base que passa despercebida e pode, assim, progredir.

UCS/HU-UFGD – Existe uma margem de segurança, um tempo após o vencimento, em que os medicamentos ainda podem ser consumidos?

Armando – O prazo de validade de prateleira, aquele exposto nas embalagens de medicamentos, é baseado nas condições de transporte, armazenamento e administração recomendados pelo fabricante para assegurar que o produto está apto ao consumo, sendo ainda o período que o fabricante garante a totalidade das atividade e propriedades do medicamento, ou seja, as indústrias farmacêuticas se isentam de qualquer responsabilidade sobre o uso de medicamentos com prazo de validade expirado, sendo também vedado pela Vigilância Sanitária (ANVISA) a distribuição ou mesmo recomendação de uso de medicamentos vencidos por qualquer profissional de saúde.

UCS/HU-UFGD – E os medicamentos vencidos, se consumidos, de que forma podem prejudicar a saúde?

Armando – O uso de medicamentos vencidos é incerto, podendo manter, reduzir ou perder a atividade, podendo ainda gerar substâncias tóxicas que podem levar a alterações de funções renais e hepáticas, por exemplo, ou mesmo levar à hospitalização e morte. A melhor recomendação que posso oferecer é a de utilizar somente medicamentos prescritos pelo médico e orientados pelo farmacêutico, ter em casa o mínimo de medicamentos disponíveis e com uma vigilância muito grande sobre eles, para não os usar vencidos. Outra questão importante a ser considerada é a de que os medicamentos devem ser armazenados em local arejado e com baixa umidade, nunca em banheiros ou cozinhas, pois nestes locais os medicamentos podem sofrer alterações físico-químicas que comprometam sua segurança, mesmo dentro do prazo de validade. Por isso, antes de usar os medicamentos, sempre observe se não há alterações de cor nos comprimidos e cápsulas ou em líquidos orais. Nestes também é importante observar se há a formação de grumos ou precipitados. Caso existam alterações, o medicamento deve ser descartado.

UCS/HU-UFGD – Existe algum risco na prática, bastante comum, de fracionar os comprimidos (especialmente antibióticos) e consumir cada “metade” num horário?

Armando – Como mencionado anteriormente, o uso de antibióticos foi muito banalizado, não somente no Brasil, e hoje temos visto a repercussão disso, com a recorrência de microrganismos cada vez mais resistentes, chegando ao ponto de não existirem tratamentos disponíveis. Ainda é muito comum nos deparamos com pessoas que tentam “economizar” consumindo apenas parte do tratamento recomendado, contribuindo com a seleção natural de microrganismos, já que o período de tratamento não foi respeitado.  Por este motivo, atualmente a comercialização de antibióticos é restrita e controlada, mas ainda há muito a ser melhorado.

UCS/HU-UFGD – Como deve ser feito e por que é importante fazer o descarte correto dos medicamentos vencidos ou fora de uso?

Armando – Descartar medicamentos no lixo comum é um risco enorme, tanto para a saúde como para o meio ambiente. Os medicamentos, muitas vezes, contêm produtos químicos ou metais pesados que infiltram no solo, contaminando a água e os alimentos produzidos, e retornam para nossas casas. O fato da água que chega às nossas casas ser tratada não elimina diversas substâncias, como agrotóxicos ou outros produtos químicos, como os medicamentos. Apesar de sério o assunto ainda não recebe a atenção merecida. Digo isso pois existe legislação no estado de Mato Grosso do Sul que determina que as Farmácias e Drogarias recebam medicamentos vencidos ou em desuso (é a Lei Estadual nº 4.474 de 06/03/2014, disponível no link https://www.legisweb.com.br/legislação/?id=267744), mas isto não é cobrado à risca pelos órgãos fiscalizadores. Este serviço, inclusive, é oferecido como um diferencial entre as farmácias, o que não deveria ocorrer. É muito frequente as pessoas nos perguntarem o local adequado para o descarte de medicamentos e sempre recomendamos as farmácias e drogarias que oferecem este serviço ou onde não existam farmácias que recebam, orientamos a entrega nos setores de Vigilância Sanitária.