• Por Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves

Atravessamos uma quadra atípica na vida nacional. O país, carente de grandes reformas, perde suas atenções e energias em questões de somenos como as condições em que morreu há mais de 40 anos um participante da luta armada, a prisão de hackers que ousaram invadir sistemas de autoridades e até mesmo a prisão do ex-presidente e de outros figurões políticos e empresariais envolvidos em corrupção. O sagrado espaço midiático é desperdiçado para a difusão de temas que, sem prejuízo algum, poderiam figurar na página policial ou judicial, por mais notórios que sejam seus personagens ou motivações. Esquerda e direita são conceitos superados atualmente e só servem para justificar atitudes – muitas vezes injustificáveis – dos grupos que as incorporam, mas nada trazem de benefício à sociedade. Em lugar dos dois pólos ideológicos, os líderes do mundo discutem hoje tecnologia, educação, sustentabilidade e outros temas mais concretos. Para o desempregado pouco importa de que tendência virá o seu emprego desde que o alcance; e para a população é mais importante ter os bens e serviços que os governos lhe devem do que saber como pensam os governantes.

O atual governo foi eleito com a proposta de mudança. E mudou quando montou seu ministério sem a promiscuidade até então reinante no meio político-administrativo. Agora se bate pelas reformas, onde o Congresso liberto das amarras e subordinação que a barganha impunha a seus membros poderá exercer plenamente a representação do povo. Mas há um ruído no ar que insiste em destacar querelas e relegar as grandes questões cujo encaminhamento dará o tom da vida que terão os brasileiros da atual e das futuras gerações. Além do equilíbrio da Previdência (já em andamento no Congresso), precisamos da reforma administrativa para desinchar o funcionalismo e tornar a máquina pública mais eficiente, apolítica e menos onerosa. Carecemos da reforma tributária que simplifique os impostos e confira atratividade aos investidores, da reforma política que melhore o processo de escolha e representação popular. Temos, inclusive, de encontrar o meio em que os partidos sejam os verdadeiros detentores das ações políticas, hoje usurpadas por grupos de pressão, entidades de outros fins e até por esquemas criminosos.

Faz-se necessário compreender que fomos atropelados pelo falso democratismo e este nos levou à crise. Priorizar providências e normatizações sociais e econômicas irresponsavelmente postergadas durante todos os anos em que temerárias lideranças insistiam que tudo se resolveria pela simples presença da democracia. Está provado que a panacéia não existe. Não podemos continuar perdendo tempo com quinquilharias quando a necessidade é trabalhar pelo aperfeiçoamento do país, de que dependemos todos nós, independente de raça, credo, cultura ou condição social. Ideologia, águas passadas, erros ou acertos não devem presidir os debates. Sua utilidade se restringe à oportunidade de reflexão para não repetir enganos e impropriedades, um mero acessório diante de tantas prioridades…

  • Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo) 

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