Jornalista é acusado de organização criminosa em caso de hackers

Glenn Greenwald pode virar alvo de processo no Brasil – Foto: ANSA

O Ministério Público Federal em Brasília (MPF) denunciou o jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept Brasil, no âmbito da Operação Spoofing, que investiga invasões contra celulares de autoridades.

O repórter não era investigado nem havia sido indiciado pela Polícia Federal, que não encontrara indícios de delitos, mas o MPF decidiu denunciá-lo por organização criminosa. Segundo o Ministério Público, Greenwald “auxiliou, orientou e incentivou” os hackers.

Entre as vítimas das invasões estão o ministro da Segurança Pública, Sergio Moro, e o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato no MPF em Curitiba.

O procedimento é assinado pelo procurador Wellington Divino Marques de Oliveira e também denuncia seis supostos hackers por organização criminosa e lavagem de dinheiro: Walter Delgatti Neto, Thiago Eliezer Martins Santos, Danilo Cristiano Marques, Gustavo Henrique Elias Santos, Luiz Henrique Molição e Suelen Oliveira.

Greenwald foi denunciado com base no áudio de um diálogo encontrado em um notebook apreendido na casa de um dos investigados. Segundo o MPF, a conversa aconteceu logo após a divulgação de que o celular de Moro havia sido invadido e comprovaria que o jornalista recomendou a Molição apagar as conversas.

No diálogo, Greenwald diz que não há “nenhum motivo” para os hackers manterem os diálogos, mas afirma que a escolha é do interlocutor e que isso não prejudicaria o trabalho do Intercept. “É difícil porque eu não posso te dar conselho, mas eu tenho a obrigação para proteger meu fonte, e essa obrigação é uma obrigação pra mim que é muito séria, muito grave, e nós vamos fazer tudo para fazer isso, entendeu?”, afirma o jornalista.

De acordo com o MPF, essa postura caracteriza “clara conduta de participação auxiliar no delito, buscando subverter a ideia de proteção a fonte jornalística em uma imunidade para orientação de criminosos”.

Liberdade de imprensa

Segundo ranking da ONG Repórteres sem Fronteiras, o Brasil é apenas o 105º colocado em termos de liberdade de imprensa no mundo e caiu três posições entre 2018 e 2019. “O direito ao sigilo das fontes já foi questionado em diversas situações no país, e muitos jornalistas e meios de comunicação são alvos de processos judiciais abusivos”, diz o relatório da RSF.

Nos últimos meses, o Intercept publicou uma série de reportagens baseadas em mensagens de procuradores da Lava Jato e que evidenciaram ações coordenadas entre o MPF e o então juiz Sergio Moro.

O próprio Greenwald chegou a ser agredido por um colega de profissão, Augusto Nunes, durante um programa de rádio. Além disso, o presidente Jair Bolsonaro defendeu publicamente que o jornalista fosse colocado em “cana”.

Confira o trecho do diálogo usado pelo MPF para denunciar Greenwald

MOLIÇÃO: Sim. A gente também queria saber a sua opinião a respeito de algo. Como, assim que você publicar os artigos, todo mundo vai excluir as conversas, todo mudo vai excluir o Telegram, a gente queria saber se você, o que você recomenda fazer. A gente tem alguns nomes separados, a gente pegar esse final de semana já puxar a conversa de todo mundo ou deixar quieto por um tempo. Porque as… tem pessoas que tem um número antigo, ou seja, nem tem mais o número, que dá pra puxar as conversas que tem.

GREENWALD: Sim. Olha, nós vamos, por que que vai acontecer? É que com certeza eles vão tentar acusar a gente que nós participamos na, na no hack. Eles vão tentar acusar que “nós formam” parte dessa ah… tentativa de hackear. Eles vão com certeza acusar. Então para mim, mantendo as conversas, são as provas que você só falou com a gente depois você tinha tudo. Isso é muito importante para nós como jornalistas para mostrar que nossa fonte só falou com a gente depois que ele já tinha tudo.

MOLIÇÃO: Sim.

GREENWALD: Mas nós não vamos oferecer disso, nós não vamos baixar isso para esse encontro, mas nós precisamos manter isso. Mas você está perguntando se você deve fazer?

MOLIÇÃO: Não, é que a gente não quer chegar a prejudicá-lo de alguma forma. Mas a gente pede a sua opinião.

GREENWALD: Sobre mais exatamente o quê?

MOLIÇÃO: Sobre puxar todas essas pessoas nesse final de semana, pra já manter as conversas salvas que a gente tiver, ou…

GREENWALD: Entendi. Então, nós temo… é… vou explicar, como jornalistas, e obviamente eu preciso tomar cuidado como com tudo o que estou falando sobre essa assunto, como jornalistas, nós temos uma obrigação ética para “co-dizer” (?) nossa fonte.

MOLIÇÃO: Sim.

GLENN GREENWALD: Isso é nossa obrigação. Então, nós não podemos fazer nada que pode criar um risco que eles podem descobrir “o identidade” de nossa fonte. Então, para gente, nós vamos… como eu disse não podemos apagar todas as conversas porque precisamos manter, mas vamos ter uma cópia num lugar muito seguro… se precisarmos. Pra vocês, nós já salvamos todos, nós já recebemos todos. Eu acho que não tem nenhum propósito, nenhum motivo para vocês manter nada, entendeu?

MOLIÇÃO: Sim.

GREENWALD: Nenhum… Mas isso é sua, sua escolha, mas estou falando e, isso não vai prejudicar nada que estamos fazendo, se você apaga.

MOLIÇÃO: Sim. Não, era mais, era mais uma opinião que a gente queria mesmo, pra gente fazer mais pra… mais pra frente.

GREENWALD: Sim, sim. É difícil porque eu não posso te dar conselho, mas eu tenho a obrigação para proteger meu fonte e essa obrigação é uma obrigação pra mim que é muito séria, muito grave, e nós vamos fazer tudo para fazer isso, entendeu?

MOLIÇÃO: Sim. É que conforme o… é… se a gente puxar essas conversas, corre o risco de acabar saindo mais notícia. Então isso pode de alguma forma é… prejudicar, então isso que é anossa preocupação.

GREENWALD: Entendi, entendi. Ah… sim, sim. A nossa nossa, quando publicamos, única coisa que nós vamos falar é que nossa parte disse que ele está dando esses documentos porque ele descobriu “muito corrupção”, “muitos mentiras”, “muitos coisas” que ele acreditou, o público tem direito para saber, que ele disse que ele não tem a… ele não está apoiando uma ideologia, nem um partido, que qualquer corrupção, esses documentos mostram que ele quer que “nós reportar”, reportarmos, e que nós vamos reportar. E é só para fortalecer a democracia e limpar a corrupção, né? É só isso que estamos falando. E também nós vamos falar que nós recebemos todos os documentos muito antes dessas artigos da outra semana sobre Moro, sobre outra coisa sobre hackeados.

MOLIÇÃO: Sim. Não, perfeito.

GREENWALD: Só isso.

MOLIÇÃO: Perfeito.

GREENWALD: É só isso que vamos falar.

MOLIÇÃO: Certinho, perfeito

GREENWALD: Tá bom?

MOLIÇÃO: Sim, era só isso que a gente tinha pra discutir.

GREENWALD: Oi?

MOLIÇÃO: Era só isso que a gente tinha pra discutir com você.

GREENWALD: Ah, tá bom, tá bom.

MOLIÇÃO: Certo? Obrigado.

GREENWALD: Tá bom, obrigado você. Qualquer, qualquer dúvidas me liga tá?

MOLIÇÃO: Sim.

GREENWALD: Tá bom, tchau, tchau.

MOLIÇÃO: Tchau.

Da AnsaFlash

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