Integrando a equipe multiprofissional, fisioterapeuta atua na prevenção e no controle de intercorrências durante a internação em Unidade de Terapia Intensiva

Fisioterapeuta Alexandre Satoshi Inagaki – Divulgação

A crescente demanda pelo atendimento em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), provocada não apenas pelo aumento da incidência de doenças crônicas e degenerativas e de acidentes de trânsito, por exemplo, mas também pela crescente estruturação dos serviços de urgência e emergência e até mesmo pela melhora da expectativa de vida da população, tem ocasionado mudanças no perfil da assistência intensivista.

Até o ano de 2016, quando foi feito um censo pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), o Brasil contava com mais de 41 mil leitos de UTI, demandando para sua manutenção o trabalho conjunto de milhares de profissionais das mais diversas formações.

O ambiente da UTI é composto por estruturas complexas, não somente em relação a equipamentos, mas também aos recursos humanos necessários para o cuidado com o paciente. O local recebe casos graves e potencialmente graves, que apresentam descompensação de um ou mais sistemas orgânicos, e que necessitam ser continuamente avaliados e monitorados.

Lá são realizadas intervenções de suporte à vida, enquanto se trata a causa da doença ou da condição apresentada pelo paciente. Para tanto, é necessária a atuação de uma equipe multiprofissional, que trabalhe de forma abrangente, harmônica e integrada para a plena recuperação do indivíduo.

O fisioterapeuta é um dos profissionais que integram esse grupo e sua função é avaliar e monitorar continuadamente o paciente internado, sendo uma de suas principais atuações o gerenciamento do sistema respiratório, pois é fundamental que as vias respiratórias estejam sem secreção e os músculos respiratórios funcionem adequadamente. Além disso, o fisioterapeuta trabalha a força dos outros músculos do corpo, para diminuir a retração dos tendões e evitar os vícios de postura que podem provocar contraturas e úlceras de pressão (escaras).

Para explicar detalhadamente a importante atuação desse profissional no ambiente da UTI, a Unidade de Comunicação Social entrevistou o fisioterapeuta Alexandre Satoshi Inagaki, especialista em Fisioterapia em Terapia Intensiva Adulto e coordenador do Serviço de Fisioterapia na UTI Adulto do HU-UFGD. Confira a íntegra da entrevista:

UCS/HU-UFGD – Como podem ser descritos o cenário e o contexto de uma UTI?

Alexandre – A UTI é um ambiente complexo, permeado por muita tecnologia, onde atuam e interagem diferentes profissionais, com foco na recuperação do indivíduo que necessitou do leito, para devolver a ele a condição anterior à internação na UTI. Durante um plantão de 24 horas, podem ocorrer diversas intercorrências clínicas e admissões de pacientes, o que exige a participação conjunta da equipe médica, de Enfermagem, de Fisioterapia, entre outros profissionais. Após o período de estabilização e internação na UTI, o tempo faz com que o sentimento do medo da morte seja trocado pela angústia das dúvidas quanto a sobrevida e as sequelas, além do aspecto da condição de gravidade do indivíduo, que não reconhece suas características individuais anteriores à internação, pois pode se encontrar sedado, não respondendo a estímulo nenhum, respirando através de tubos, totalmente imóvel na cama, inchado e dependente de outros para atividades simples da vida tal como falar, tomar banho, vestir, sentar e andar.

UCS/HU-UFGD – Qual o papel do fisioterapeuta dentro de uma UTI?

Alexandre – O fisioterapeuta especialista em Terapia Intensiva é reconhecido pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Intensiva (COFFITO). Seu papel dentro da UTI inclui avaliação e diagnóstico quanto à condição funcional do indivíduo e gerenciamento do suporte ventilatório (aparelho que auxilia a respiração), tanto não invasivo (com o uso de máscaras) quanto invasivo (por meio de tubos). O fisioterapeuta é responsável pela prescrição de exercícios e atividades a fim de reduzir a perda da força muscular dos membros e também da capacidade respiratória, recuperando de forma oportuna a mobilidade e a autonomia para a realização das atividades físicas mínimas relacionadas à vida diária, como virar-se na cama, sentar-se, ficar em pé e andar.

UCS/HU-UFGD – Como é a atuação desse profissional em termos de equipamentos e técnicas?

Alexandre – A atuação do especialista inicia-se na admissão do paciente na unidade, com a coleta da história da sua condição funcional antes da internação, auxiliando na elaboração do diagnóstico. Utiliza-se de ferramentas de avaliação e reavaliação, bem como a aplicação de testes funcionais, buscando analisar o cognitivo e o sensorial, a dor, a força muscular periférica, o grau de autonomia para movimentação no leito e fora dele e a condição cardiocirculatória e respiratória, ao repouso e ao esforço. Quanto à utilização de equipamentos, existem os desenvolvidos para avaliação de volumes e capacidades pulmonares e força muscular ventilatória, e os equipamentos de imagem, desde raio-X até ultrassom e tomografia de bioimpedância elétrica pulmonar, que possibilitam exames à beira do leito. Há, ainda, equipamentos de suporte como o ventilador mecânico, que substitui a respiração, e é um recurso muito usado nas UTIs nos casos de insuficiência respiratória, tendo seu manejo adequado relação com a melhora dos desfechos clínicos. O fisioterapeuta especialista em Terapia Intensiva está habilitado para gerenciar a ventilação mecânica, juntamente com a equipe multiprofissional. Por fim, existem os dispositivos destinados a promover esforço muscular, como o cicloergômetro (bicicleta estacionária), pesos e halteres. Camas e pranchas facilitam a transferência para fora do leito, possibilitam que o paciente fique sentado ou em pé, e auxiliam a andar. Também são utilizados aparelhos de eletroestimulação transcutânea.

UCS/HU-UFGD – Para o paciente internado em UTI, quais os benefícios da atuação do fisioterapeuta?

Alexandre – A atuação do especialista na UTI contribui para diminuir os eventos adversos relacionados à assistência em saúde, como infecções, fraqueza muscular periférica, lesões induzidas pela ventilação mecânica, pneumonia associada à ventilação mecânica, lesões de pele e nas vias aéreas e alteração sensoriais (delirium). Também reduz o tempo de dependência da ventilação mecânica, o tempo da internação hospitalar e o risco de morte, além de favorecer a recuperação da autonomia para realização das atividades da vida diária.