Alunos da Escola Coronel Firmino, de Macaúba, foram incentivados a escrever as ofensas que sofreram – Divulgação

Quando se fala sobre bullying, se ouve opiniões diversas e, lamentavelmente, em alguns casos, talvez pelo desconhecimento ou por convicção, pessoas emitem opiniões absurdas sobre o tema. Dizem que se trata apenas de “frescura” ou algo para chamar a atenção. Embora seja um assunto polêmico e que divide opiniões, especialistas afirmam que as pessoas não devem se omitir diante de sua ocorrência, principalmente os educadores e a escola, enquanto espaço transformador e acolhedor das diferenças.

O bullying se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou físicas, feitas de maneira repetitiva, da parte de um ou mais adolescente/jovem/pessoa contra seus pares. Origina-se do inglês bully, que significa valentão, brigão. E ainda que não tenha uma denominação em português, é entendido como ameaça, opressão, intimidação, humilhação e maltrato.

Embora o bullying exista em praticamente todas as escolas, nem sempre é fácil identificar a ocorrência, pois em muitos casos ele é silencioso e o agressor quase sempre ameaça ou intimida a vítima, coibindo-a a não reagir. Por isso, é fundamental que o professor e todos os segmentos da escola estejam atentos e sensíveis a qualquer situação que altere o comportamento de estudantes, alteração de humor, apatia, isolamento, revolta, dentre outros.

Foi com esse olhar atento e com a preocupação integral com os estudantes que a coordenação da Escola Municipal Firmino Vieira Matos, em Macaúba, distrito de Guassu, conseguiu identificar situações de desprezo, de provocações, de zombaria e constrangimento para com alguns dos adolescentes e jovens e resolveu desenvolver ação de conscientização e de reflexão no ambiente escolar.

“Graças à sensibilidade de alguns professores, da abertura e apoio do diretor Mário Almeida Santos e das coordenadoras pedagógicas Cristina Aparecida Neas e Vera Lúcia Borges, foi possível realizar essa intervenção na nossa escola”, diz professor-mestre Edvaldo T. Moraes, coordenador da intervenção.

A primeira ação foi uma pesquisa, de forma aleatória, na qual os alunos foram questionados se já haviam sofrido algum tipo de bullying e, se sim, que escrevessem qual tipo de ofensa sofreram, sem a necessidade de se identificar. “O resultado foi surpreendente. Deparamo-nos com relatos profundos e chocantes. Os motivos variavam de questões físicas à sexualidade, classe social ou até mesmo comportamento cotidiano. O mais triste é que as vítimas expuseram a angústia e o sofrimento que isso lhes provocava. Alguns casos foram preocupantes por sua gravidade, o que nos levou a agir rapidamente”, revela o coordenador.

O professor cita algumas das frases que os estudantes relataram ter ouvido: “Picolé de café”… “nego fedido”… “Você não deveria nem ter nascido”… “Você é uma aberração!”… “Você parece um lobisomem de tanto pelo “(para uma menina”… “Se você morrer resolve os seus problemas e os nossos”… “Você nunca vai encontrar alguém pra namorar!”… “Vai morrer de tanto comer, sua gorda!”… e por aí seguem as ofensas atrozes.

“O que me chocou, foi perceber que em muitos casos, a criança/adolescente sofre tais provocações no seio familiar, de pais e irmãos. Sempre nos deparamos com meninas e meninos se cortando, e aquilo que para muitos é apenas uma forma de chamar a atenção, significa muito mais; é a expressão de uma dor tão profunda, que somente uma dor física, de um corte, por exemplo, pode superar e fazer esquecer a dor maior, por alguns instantes. E mesmo que alguns estejam certos, e se for para “chamar a atenção”, certamente a família precisa rever sua postura, pois se um filho ou filha precisa chegar a uma medida tão extrema para ser notado, isso é sinal de que a família está falhando muito em se fazer presente na vida dele ou dela”, explica Edvaldo Moraes.

Segundo o professor, após o momento de intervenção e reflexão na escola muitos foram os depoimentos de estudantes, que se sentiram mais livres e confiantes para desabafar e procurar ajuda com professores e colegas, e até mesmo professores que se identificaram e confessaram já terem sofrido bullying.

A coordenação diz que outros momentos serão selecionados para se falar mais sobre o assunto e outras ações serão realizadas.

A coordenação da Escola criou a ‘Caixinha do Desabafo’, uma caixa confeccionada em forma de urna na qual os estudantes ou qualquer pessoa da escola possam escrever suas angústias, relatar conflitos, partilhar suas dores ou fazer uma denúncia sobre qualquer situação relacionada ao bullying, sem precisar se identificar, caso assim prefira.

“Por esse motivo, acredito que o trabalho foi muito válido e, certamente, trazer reflexões como essas ao ambiente escolar não é só uma possibilidade, mas um dever da escola, que tem autonomia em modificar a vida de muitos adolescentes e jovens”, comenta o professor-doutor Bruno F. Campos, colaborador do projeto desenvolvido na Escola Firmino Vieira de Matos.