Educação, Saúde e um mea culpa necessário, por Eduardo Marcondes

Eduardo Marcondes é pediatra, ex-secretário municipal de Saúde e ex-vereador – Divulgação

Os gestores, do Governo Federal aos estados e Municípios, poderiam não ter que gastar bilhões com a Saúde (Por óbvio os investimentos emergenciais que estão sendo feitos são necessários e imperiosos, vez que estamos em uma pandemia) se investissem mais em Educação.  À primeira vista soa estranha a afirmação, sobretudo porque é conhecida minha luta pelo fortalecimento do Sistema único de Saúde (SUS) e pelo fim do seu sub-financiamento. Essa posição está registrada em diversos artigos publicados nos meios de comunicação, que registram também minha defesa da escola como promotora não apenas de conhecimento em física, matemática ou gramática, mas de Saúde.

Saúde e Educação são irmãs siamesas: não existe saúde sem Educação e ao mesmo tempo a Educação prescinde da Saúde!  A dificuldade que vem se enfrentando para que se cumpra uma regra básica para evitar a propagação do vírus Corona/Covid 19 (o distanciamento social) advém sim da falta de investimentos em Educação. Passada a pandemia, que esses gestores que hoje veem atônitos as pessoas morrerem por falta de estrutura para atendê-las invistam bilhões (não os bilhões que são gastos na Saúde, que precisa, claro, continuar a receber cada vez mais investimentos) em Educação. Em compra de tablets para cada criança carente, já que é inexorável e irreversível o processo de evolução tecnológica, que exige novos meios de “chegar” até essas e todas as crianças, jovens e adultos, incluindo também os idosos, tão vulneráveis em situações como a que estamos atravessando.

O reconhecimento de que as instituições educacionais devem preocupar-se com a saúde e o bem-estar das crianças é expresso em vários documentos que norteiam políticas públicas de educação, saúde e justiça social, bem como na literatura especializada no tema. Justifica a importância da valorização da Educação e da Saúde a dimensão do trabalho dos professores: as crianças que convivem no espaço de uma creche ou pré-escola e interagem com os colegas e profissionais da unidade continuam interagindo diariamente com seus familiares nas comunidades onde residem e com as quais se relacionam. Isso implica reconhecer que todos os aspectos dessa diversidade de relações devem ser considerados, incluindo-se as práticas sociais e as políticas públicas voltadas à prevenção e ao controle dos problemas de saúde prevalentes na comunidade.

Tudo o escrito acima soa óbvio e é sabido pelos profissionais tanto da Saúde como da Educação. Mas como fazer Educação de qualidade e com foco também na promoção da saúde se o investimento em Educação no Brasil caiu 56% nos últimos quatro anos?. Entre 2014 e 2018, diminuiu de R$ 11,3 bilhões para R$ 4,9 bilhões. E a Saúde? Os dados da Organização Mundial da Saúde apontam que dos 193 países membros da organização, 81 gastam mais com a Saúde do que o Brasil, proporcionalmente ao orçamento público. Em 2017, o Brasil gastava 10,3% de seu orçamento público com saúde, abaixo da média dos países das Américas – 13,2% – e também da Europa -12,3%. O orçamento brasileiro em 2020 alcançou R$ 3,8 trilhões, dos quais R$ 125 bilhões foram encaminhados para a área da Saúde. Uma boa medida, mas ainda longe do necessário.

Finalizo este artigo com a Mea Culpa que precisa ser feita: O Estado, nas três esferas, tem muito a pagar para a sociedade brasileira ter um sistema de saúde melhor, que trate de maneira igual todos os cidadãos. Mas para isso tem, reforço, que melhorar a capacidade de financiamento da Saúde e da Educaçao, sem demérito da Segurança Pública, da Agricultura e etc, e tem que, com igual vigor, melhorar a gestão. Esse movimento nós temos que fazer durante e sobretudo no pós-COVID. É o futuro. Todos temos, também como sociedade, que colocar um tijolo na edificação desse futuro, com firmeza e eficácia. Dessas ações efetivas dependerá a vida tanto da geração atual como das que virão. Com mais recursos em Educação e Saúde, quiçá nunca mais tenhamos que comprar respiradores.