Criador dos Noturnos, sua obra foi profundamente impactada pelo romance que manteve com a cidade e com a escritora francesa George Sand

O compositor Frédéric Chopin – Divulgação

Qualquer pessoa que compra passagens aéreas para visitar Paris no outono não pode ir embora sem seguir, ao menos por um dia, os passos de Frédéric Chopin pela cidade-luz. Apesar de muitos compositores terem passado pela capital francesa em alguns momentos da história ー Mozart, por exemplo, foi à cidade pedir emprego aos nobres franceses e, por isso, apresentou várias de suas peças clássicas nas mansões parisienses ー Chopin estabeleceu com ela uma relação mais profunda.

Quando chegou a Paris, no outono de 1831, Chopin tinha sentimentos ambíguos com relação aos franceses: se por um lado criticava a inércia deles diante do jugo russo na Polônia, de onde tinha saído às pressas, a beleza e exuberância da capital do país o deixava entorpecido. “Sem dúvida eu ficarei em Paris por mais tempo do que eu pensei inicialmente. Não que eu aqui esteja completamente bem, mas porque é possível que pouco a pouco eu venha me sentir muito bem e feliz”, escreveu em uma carta a um amigo em novembro daquele ano.

Entre 1831 e 1849, o compositor polonês levou uma vida tumultuada em Paris, como conta o jornalista (e seu conterrâneo) Tad Szulc no livro Chopin In Paris: The Life And Times Of The Romantic Composer, publicado em 1999. Os passos do autor dos famosos Noturnos pela capital francesa também são objetos de estudo da professora Halina Goldberg, da Universidade de Indiana (EUA), que dedicou sua carreira a pesquisar como a obra de Chopin se envolveu com a metrópole de seu tempo.

Na Place de D’Orleans, mais especificamente na Rue Taitbout, no 9º arrondissement, por exemplo, um séquito de turistas e fãs do compositor costuma ir procurar o apartamento onde ele passou a década de 1840 quase inteira, no prédio do número 80. A praça é hoje um campo retangular com uma fonte e várias árvores, e o caminho até o local fica do lado esquerdo de um portão interno, onde uma placa indica os anos que morou ali ー um edifício que vários outros artistas viviam na mesma época, como a escritora George Sand (nome fantasia da romancista francesa Aurore Dupin), com quem viveu uma relação amorosa até 1847 após conhecê-la na casa do compositor húngaro Franz Liszt.

O apartamento de Chopin fica no primeiro andar, no número 9 ー o que era uma vantagem na época por não precisar subir muitas escadas. Depois de sete anos, em 1849, ele decidiu se mudar para um prédio na Place Vendôme, onde morreu em outubro daquele mesmo ano.

O período na Place D’Orleans foi difícil, mas também cheio de glórias: na mesma medida em que via sua saúde se deteriorar, ganhava mais amigos, entre artistas, músicos e admiradores, além de viver o auge do amor por Sand, sua vizinha, naqueles poucos metros quadrados. A visão do imóvel, pode-se dizer, favorecia o seu gênio: um jardim com uma bela fonte renascentista e duas pequenas árvores que, no inverno, ficam totalmente brancas de neve.

Se o fim da vida em Paris transcorreu entre a Place d’Orleans e a Vendôme, o começo dela ficou marcado pelo seu primeiro concerto na cidade, nas Salles Pleyel, não muito longe do prédio do 9º arrondissement. Os salões não funcionam mais, porque as pessoas pararam de comprar os pianos que a loja produzia e, assim, a tradição chegou ao fim. Até 2011, ainda era possível visitar a colorida coleção de pianos que ficava em exibição aos turistas, principalmente nas altas temporadas, mas hoje suas portas estão completamente fechadas.

Nas Salles Pleyel, Chopin tocou trechos da ópera Don Giovanni, de Mozart, em 1832, e foi ali que também se apresentou pela última vez, a um público todo formado por amigos, em 16 de fevereiro de 1848. Entre rostos familiares, rodeado por buquês de flores, o compositor polonês tocou prelúdios e valsas e, em um momento do concerto, seu amigo Auguste Franchomme assumiu o violoncelo para recitar com ele uma outra peça de Mozart.

Um terceiro lugar para reviver os passos de Chopin em Paris é o Musée de la Vie Romantique, localizado na antiga casa do pintor Ary Scheffer (1795-1858), que era amigo do compositor e inclusive lhe regalou vários retratos e telas ー muitos deles pintados ali. O espaço fica na Rue Chaptal, também no 9º arrondissement, e possui relíquias que contam as vidas de George Sand, Ary Scheffer, Eugene Delacroix, Franz Liszt, Pauline Viardot e outro integrante da turma: Frédéric Chopin.

Segundo o livro de Szulc, Chopin amava caminhar pelos Jardins des Tuileries, e ficou muito feliz quando recebeu um convite de Luís Filipe I, o “rei cidadão”, para visitar o Palais des Tuileries, em 1838. Também admirava as arcadas do Palais-Royal, ao lado do Museu do Louvre, onde costumava frequentar as lojas que vendiam luvas, chapéus e casacos.

Para além dos lugares que ele frequentou, a biblioteca polonesa de Paris, no Quai d’Orléans, conserva hoje não apenas as lembranças do compositor, mas a história dos migrantes da Polônia que chegaram à cidade junto com o general Karol Knakiewicz, representante do governo insurgente e expatriado depois da invasão russa. Uma das atrações do espaço é o Salão Chopin, onde é possível ver vários artefatos que foram seus durante a estadia parisiense, além de uma extensa coleção de Adam Mickiewicz, um escritor polonês que era amigo próximo do casal Chopin e Sand.

Do outro lado do Rio Sena há outro marco polonês de Paris e da vida de Chopin: o Palácio Lambert, que no século XIX era propriedade do príncipe Czartoryski, da Polônia. Ele não apenas fundou a Livraria Polonesa e a Sociedade Histórica da Polônia na cidade, mas organizava bailes e festas de caridade tanto para expatriados recém-chegados à capital da França, como para artistas e intelectuais poloneses que já viviam há algum tempo na capital francesa, como Chopin ー sempre acompanhado de sua esposa e do pintor francês Delacroix.

Na Place Vendôme, onde o relato de sua morte se tornou uma cena literária contada até hoje, Chopin viveu apenas dois anos. Perto de sua morte, em junho de 1849, ele pediu que seus amigos levassem sua irmã, Ludwika Chopin, da Polônia a França, para se despedir. Os amigos ainda escreveram que, nas últimas semanas, uma condessa polonesa que era sua amiga levou um piano ao seu quarto para que ele tocasse os Salmos de Marcello. Seu funeral, em outubro, aconteceu na Igreja da Madeleine, na Place de la Concorde, e seu corpo foi velado o tempo todo ao som de Réquiem, escrita por (e executada no funeral de) Mozart.