Tirada dos retratos familiares, a foto permitiu que, pela primeira vez na história, cada um contemplasse a si mesmo

O historiador francês Alain Corbin ficou famoso, além de seus estudos sobre a racionalização dos tempos de trabalho e de lazer no começo do século 20, pelas investigações que fez sobre o surgimento da individualidade, que podem ser lidas no artigo “O segredo do indivíduo”, publicado originalmente na França em 1999.

Segundo ele, o sentimento de individualidade das pessoas se expandiu somente ao longo do século 19, quando, na Europa, as regras de transferência do nome familiar perderam força, os serviços de correios e a popularização dos cartões-postais contribuíram para a acumulação de símbolos individuais e o ato de olhar-se no espelho deixou de ser um privilégio das camadas superiores.

Nas aldeias, até o começo daqueles anos, apenas barbeiros tinham espelhos — e estes ambientes eram, além de fechados a grupos masculinos, restritos à imagem do rosto, sem permitir o corpo inteiro refletido.

No campo, no entanto, o espelho ainda era um item inexistente. Corbin escreve que, nas classes abastadas, o código de boas maneiras proibia que as mulheres se vissem nuas. “Haviam tipos de pós especiais com a missão de turvar a água da banheira para evitar que as mulheres pudessem ver o próprio reflexo”, diz ele. Mais tarde, com a permissão de ver-se por inteiro no vidro, o nutricionismo e a estética ganharam novos rumos.

O espelho trouxe, por consequência, a difusão do retrato — o “pai” da fotografia. Ele servia como símbolo do sucesso e da posição social de cada pessoa e, já no final daquele século, quando era uma prática popular, permitiu também que se espalhasse o uso de adereços pelas mulheres, como pingentes e maquiagem.

A técnica do retrato sofreu duas alterações significativas no período estudado por Corbin: entre 1786 e 1830, o francês Gilles Louis Chrétien criou o “physionotrace”, equipamento que permitia a reprodução de retratos em placas de metal por um preço moderado. As fotos, no entanto, “não tinham vida nem expressão”, de acordo com o historiador.

A situação mudou em 1839, quando outro francês, Louis Jacques Daguerre, criou o daguerreótipo, em que era possível imprimir imagens em placas de metal até algumas horas depois da imagem ser batida. Foi quando as famílias francesas começaram a produzir e guardar vários tipos de fotolivro, em que era contada a história de todas as suas gerações.

A popularização do retrato se deve, justamente, à fotografia. Corbin diz que isso aconteceu por volta de 1841, mas foi só uma década depois, quando o processo já estava dominado e era barato, que passou-se a ser comum prensar imagens por meio do daguerreótipo. Então, os primeiros fotógrafos iam às ruas vender suas imagens, enquanto outros viajavam de cidade em cidade tirando fotos das pessoas que comprassem seus serviços.

Segundo Corbin, ter acesso à própria foto “instigava o sentimento de autoestima e democratizava o desejo de atestado social”.

Em 1855, enfim, já se podia até fazer retoques nas fotos — que, hoje, é um processo conhecido por causa dos programas de computador e dos aplicativos de smartphone. Longe das zonas urbanas em crescimento na Europa, um novo padrão de beleza passou a ameaçar os valores tradicionais.

Naquela época, a fotografia também foi usada para ressignificar a figura dos mortos e dos desaparecidos, o que, segundo Corbin, transformou o jeito como as pessoas lembravam dos seus mortos e sumidos. Esse sentimento, para ele, foi responsável pela criação do moderno epitáfio. Este, por sua vez, declinaria quando a industrialização dos cemitérios exigiu o espaço dos túmulos para inscrição de longos textos.

Em 1880, as fotos de amadores superaram a dos profissionais das ruas e, assim, a vida íntima passou a ser retratada com mais perfeição. “O reajustamento do indivíduo para a individualidade o levou do anonimato para relações de interconhecimento. A sociedade passou a ser um agregado de pessoas com pensamentos individuais. O Estado precisou iniciar um processo de controle social e identificação”, escreve.

O resultado disso foi que surgiram diferentes maneiras de cadastrar as pessoas em determinados documentos que lhes servia para apresentações de qualquer instância. Esse processo substituiu aos poucos o reconhecimento pessoal ou pelo nome de família e contemplou o período de alfabetização das autoridades que, hoje, já no século 21, é a fonte principal de inovação tecnológica e inteligência das sociedades humanas.