• Por Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves

Na virada dos anos 40 para os 50 do século passado, Carlos Lacerda, o grande tribuno adversário de Getúlio Vargas, colocava em dúvida a honestidade do governo e de seus integrantes. Atribui-se o suicídio do presidente, em 1954, à vergonha ao descobrir focos de corrupção entre seus auxiliares. Nos anos JK, os contrários acusavam corrupção nas obras da nova capital. Tanto que, em 1960, venceu a eleição Jânio Quadros, cujo mote de campanha era a vassoura (já aplicada em São Paulo, onde foi vereador, prefeito e governador) destinada a varrer a roubalheira.

Jânio governou apenas 7 meses. Sua renúncia abriu grande crise e o vice-presidente João Goulart, para assumir, submeteu-se ao parlamentarismo, que derrotou no plebiscito de 6 de janeiro de 1963. O ingrediente ideológico e as denúncias de corrupção (verdadeiras ou não) fizeram o pano de fundo para a quebra institucional e a instalação do regime militar de 1964, hoje conhecido como ditadura. Uma das justificativas era o combate à corrupção. As arrecadações foram centralizadas na União, passando os estados e municípios a receberem cotas-parte do bolo, através dos fundos de participação e estados e municípios, até hoje vigentes. O grande esvaziado foi o município, sob o argumento de combate à corrupção. Como todo regime que se estende por muitos anos, também ocorreram as denúncias de ilícitos nos governos militares, encerrados em 1985, com a eleição de Tancredo Neves, que morreu sem tomar posse e deixou a Nova República nas mãos de José Sarney.  Era o tempo em que se pregava (e muitos acreditavam) que com democracia se resolveriam todos os problemas nacionais.

Vivemos hoje o mais longo período democrático do país e, desafortunadamente, atropelados pela corrupção largamente cultivada até por aqueles que cresceram na política e ganharam a confiança do povo através de discursos moralistas. Chegamos ao ponto em que notáveis da República estão presos, outros caminham para o cárcere e milhares se assustam com o andar das apurações. A prática política promove o loteamento do governo, potencializa o empreguismo, grupos transformados em quadrilhas saqueiam o erário e em algumas unidades da federação está difícil até encontrar candidatos para as próximas eleições, pois todas as estrelas políticas estão comprometidas.

O sentimento é de que o tempo não passou. Reservadas as questões de época e ambiente, ouviremos o mesmo discurso eleitoral de Jânio, de Collor (o “caçador de marajás”) e de tantos outros que passaram pelo poder prometendo honestidade e não lograram eliminar a corrupção. O grande mal, salvo melhor juízo, está no sistema de coalizão, onde os governos (federal, estadual e municipal), para conseguirem se manter, são obrigados a distribuir cargos e benesses em troca de votos legislativos e apoio partidário. Aí incham-se as repartições, abrem-se as guardas, faz-se vistas grossas a irregularidades e alimenta-se o vírus da corrupção. Pior que, todas as tentativas de solução empreendidas durante as décadas e as atuais (ações da Polícia Federal, Ministério Público, Justiça, etc.) são infrutíferas se não for eliminado o vírus letal embutido na coalizão; como todo vírus, quando a repressão aperta, ele cede, hiberna e ressurge mais resistente e letal. Até quando teremos de conviver com essa nefasta companhia?

  • Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo) 

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