
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou nesta quarta-feira (23) a importância de desenvolver meios de pagamento alternativos para transações comerciais entre os países do Brics, bloco que reúne nações em desenvolvimento, incluindo o Brasil. Em discurso por videoconferência durante a 16ª Cúpula de Líderes do Brics, realizada em Kazan, na Rússia, Lula destacou que essa iniciativa pode reduzir as vulnerabilidades das economias do grupo e mitigar as desigualdades no sistema financeiro global.
Lula ressaltou que a proposta não visa substituir as moedas nacionais, mas sim criar condições para que a ordem multipolar, que esses países defendem, seja refletida também no sistema financeiro internacional. Ele afirmou que a discussão deve ser conduzida com seriedade e base técnica, mas ressaltou que é urgente iniciar esse processo.
Além desse tema, Lula reiterou outros pontos que frequentemente aborda em fóruns internacionais, como a necessidade de combater as mudanças climáticas, a fome, as desigualdades econômicas, e criticou os conflitos no Oriente Médio e na Europa Oriental. Ele também defendeu a taxação de grandes fortunas e a reformulação de instituições multilaterais.
A cúpula deste ano marca a estreia dos cinco novos membros do Brics: Egito, Irã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Etiópia, ampliando o bloco que até 2022 era composto apenas por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
Cúpula
Na cúpula de Kazan, os líderes do Brics discutiram importantes temas, incluindo negociações para reduzir a dependência do dólar no comércio entre os países do bloco e iniciativas para fortalecer instituições financeiras alternativas ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial, ambos historicamente controlados por potências ocidentais.
Em seu discurso, o presidente Lula mencionou a criação do Mecanismo de Cooperação Interbancária, que permitirá que os bancos nacionais de desenvolvimento do Brics ofereçam linhas de crédito em moedas locais, reduzindo os custos de transação para pequenas e médias empresas. Ele também destacou o trabalho do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), presidido pela ex-presidente Dilma Rousseff. Lula enalteceu o banco, que completou 10 anos, por seu papel no fortalecimento das economias do Brics, financiando infraestrutura e promovendo uma transição econômica justa e soberana. Com uma carteira de quase 100 projetos e US$ 33 bilhões em financiamentos, o NDB busca preencher lacunas deixadas pelas instituições de Bretton Woods, que incluem o FMI e o Banco Mundial.
Lula ressaltou que, ao contrário dessas instituições, o NDB evita impor condicionalidades, financiando projetos alinhados às prioridades nacionais e promovendo governança com igualdade de voto, em vez de acentuar disparidades. Ele também criticou o fluxo de investimentos que ainda se concentra em países desenvolvidos, apesar do potencial econômico do Brics. Segundo o presidente, o bloco representa 36% do PIB global por paridade de poder de compra e possui grandes reservas de recursos naturais, como 72% das terras raras, 75% do manganês e 50% do grafite do mundo, mas os fluxos financeiros continuam se direcionando majoritariamente para nações ricas.
Além disso, Lula destacou o papel do Conselho Empresarial do Brics na expansão do comércio entre os membros do bloco, citando que as exportações brasileiras para os países do Brics aumentaram 12 vezes entre 2003 e 2023. Ele também mencionou a Aliança Empresarial de Mulheres, que está promovendo redes de empoderamento econômico feminino e combatendo as desigualdades de gênero.
Brics no Brasil
Em 2025, o Brasil assume a presidência do Brics e Lula reafirmou a necessidade de modernizar as instituições de governança global e democratizar o acesso a tecnologias. O governo brasileiro, segundo o presidente, quer “reafirmar a vocação do bloco na luta por um mundo multipolar e por relações menos assimétricas entre os países”.
“Não podemos aceitar a imposição de apartheids no acesso a vacinas e medicamentos, como ocorreu na pandemia, nem no desenvolvimento da inteligência artificial, que caminha para tornar-se privilégio de poucos. Precisamos fortalecer nossas capacidades tecnológicas e favorecer a adoção de marcos multilaterais não excludentes, em que a voz dos governos prepondere sobre interesses privados”, defendeu o presidente brasileiro.
“Muitos insistem em dividir o mundo entre amigos e inimigos. Mas os mais vulneráveis não estão interessados em dicotomias simplistas. O que eles querem é comida farta, trabalho digno e escolas e hospitais públicos de acesso universal e de qualidade. E um meio ambiente sadio, sem eventos climáticos que ponham em risco sua sobrevivência. É uma vida de paz, sem armas que vitimam inocentes”, acrescentou.
Lula criticou as guerras em andamento no mundo e repetiu a fala do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, na Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro deste ano, de que a Faixa de Gaza se tornou “o maior cemitério de crianças e mulheres do mundo”.
“Essa insensatez agora se alastra para a Cisjordânia e para o Líbano. Evitar uma escalada e iniciar negociações de paz também é crucial no conflito entre Ucrânia e Rússia”, disse o presidente brasileiro, no evento presidido pelo presidente russo, Vladimir Putin.
“No momento em que enfrentamos duas guerras com potencial de se tornarem globais, é fundamental resgatar nossa capacidade de trabalhar juntos em prol de objetivos comuns. Por isso, o lema da presidência brasileira será Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável”, anunciou o presidente.
Agendas comuns
Durante o discurso, Lula ainda agradeceu o apoio dos membros do Brics à presidência brasileira do G20, em 2024, e aos temas defendidos pelo Brasil para a redução das desigualdades no mundo, como a taxação dos super-ricos e o combate à fome.
“Nossos países implementaram nas últimas décadas políticas sociais exitosas que podem servir de exemplo para o resto do mundo”, disse, convidando os países a integraram a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, que será lançada oficialmente na Cúpula de Líderes do G20, bloco das 19 maiores economias do mundo, da União Europeia e União Africana. O encontro ocorrerá em novembro, no Rio de Janeiro, quando se encerra a presidência brasileira.
O presidente lembrou ainda da pauta de combate às mudanças climáticas e voltou a cobrar maior empenho dos países ricos no financiamento de medidas de prevenção e mitigação. Para ele, entretanto, também cabe aos países emergentes “fazer sua parte” para limitar o aumento da temperatura global. “Os dados da ciência exprimem um sentido de urgência sem precedentes. O planeta é um só e seu futuro depende da ação coletiva”, alertou.
“O Brics é ator incontornável no enfrentamento da mudança do clima. Não há dúvida de que a maior responsabilidade recai sobre os países ricos, cujo histórico de emissões culminou na crise climática que nos aflige hoje. É preciso ir além dos US$ 100 bilhões anuais prometidos e não cumpridos, e fortalecer medidas de monitoramento dos compromissos assumidos”, disse o presidente, ao falar sobre a cúpula do clima das Nações Unidas (COP30) de 2025, que será sediada em Belém.
- Com Agência Brasil



















