Governo trocou quatro dos sete membros da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Presidente do colegiado contestou Bolsonaro sobre morte de desaparecido na ditadura.

O presidente Jair Bolsonaro disse nesta quinta-feira (1º) que as trocas de integrantes na Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, assinadas por ele, ocorreram porque mudou o presidente da República, que agora é “de direita”.

As substituições de quatro dos sete integrantes da comissão foram publicadas no “Diário Oficial da União”.

As mudanças ocorrem dias após a comissão ter se posicionado de forma contrária a Bolsonaro no caso da morte de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Bolsonaro afirmou na segunda-feira (29) que Fernando, morto durante a ditadura militar, tinha sido alvo de militantes da esquerda. Mas a comissão já havia emitido, na semana passada, documento mostrando que a morte foi causada pelo Estado brasileiro.

“O motivo [é] que mudou o presidente, agora é o Jair Bolsonaro, de direita. Ponto final. Quando eles botavam terrorista lá, ninguém falava nada. Agora mudou o presidente. Igual mudou a questão ambiental também”, afirmou Bolsonaro na saída da residência oficial do Palácio da Alvorada.

Um dos integrantes que foram substituídos na comissão é a agora ex-presidente, Eugênia Augusta Gonzaga. Na segunda, ela criticou Bolsonaro pelas declarações relacionadas a Santa Cruz.

Questionado por jornalistas se as alterações no colegiado tinham a ver com o episódio, Bolsonaro disse que pode ser coincidência.

“Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Pode ser [coincidência]. As coisas são tratadas dessa maneira”, respondeu o presidente.

Questionada pela TV Globo sobre ter sido retirada da comissão, Eugênia disse que “já esperava” esse desfecho.

“Eu já esperava desde a caminhada do silêncio. Lamento muito também, mas ia acontecer mais cedo ou mais tarde”, afirmou Eugênia.

Para o lugar dela, o governo nomeou Marco Vinicius Pereira de Carvalho. Ele é filiado ao PSL, partido de Bolsonaro, e assessor especial da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves.

Comissão criada em 1995
A Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos foi criada em 1995, durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

A lei nº 9.140 estabelece que o colegiado realizará o reconhecimento de desaparecidos por atividades políticas entre 1961 a 1979, período que engloba a ditadura militar (1964-1988) até o ano em que foi promulgada a Lei da Anistia.

Reunião com filho de jornalista
Bolsonaro afirmou ainda que terá uma reunião “logo mais” com o filho de um jornalista que, segundo o presidente, foi morto pela esquerda em 1966.

O presidente se referiu a ele como “o filho do jornalista Régis”. De acordo com Bolsonaro, há a possibilidade do filho do jornalista falar com a imprensa após a reunião.

Bolsonaro disse ainda que o caso tem a ver com o do pai do presidente da OAB.

“Nunca conversei com ele, primeira vez vou conversar com ele e, se ele manifestar interesse em conversar com vocês, seria uma boa maneira de vocês interrogarem. E tem a ver com o chefe da OAB, pelo o que eu fiquei sabendo e pelo o que sei da história. Mas como eu falo e tudo é desacreditado, não vale, vale o que eles contam”, afirmou o presidente.

Do G1