Aquicultura, o motor que conecta e impulsiona o Sisteminha Embrapa

Sisteminha Embrapa integra aquicultura e agricultura para garantir o direito básico à alimentação – Foto: Laurindo André Rodrigues

O Sisteminha Embrapa é a produção integrada de alimentos, utilizando a aquicultura como elemento agregador de diversas práticas agrícolas em direção a atender um dos direitos mais básicos das famílias: a alimentação. A tecnologia está tirando famílias de situação de vulnerabilidade social no Brasil e em alguns países africanos.

Um tanque para a criação de peixes, no Sisteminha, é construído geralmente em alvenaria, utilizando-se materiais comprados ou disponíveis localmente, contando ainda com a mão-de-obra de mutirões. A produção de alimentos, como verduras folhosas, mandioca, batata-doce, feijão, abóbora e milho acontece de maneira integrada à aquicultura, ou seja, esta é o “motor” do sistema, fornecendo água e nutrientes para o desenvolvimento das plantas. Sem a aquicultura todas as outras atividades estariam isoladas, desconectadas umas das outras.

Outros módulos menores podem ser agregados ao Sisteminha, de forma a fornecer alimentos variados e de qualidade às famílias envolvidas, como galinhas poedeiras, abelhas, coelhos, entre outros, de acordo com as condições e necessidades de cada local. A compostagem e vermicompostagem, para reciclagem dos resíduos orgânicos gerados no sistema integrado, são também estimuladas com o intuito de otimizar a ciclagem de nutrientes e matéria-orgânica gerada no sistema como um todo. A compostagem é um exercício de aproveitamento integral de tudo o que é produzido, sendo ainda possível a vermicompostagem, sendo as minhocas promotoras de melhor qualidade do solo e eventualmente servir de alimentos para peixes e aves.

Embora seja um sistema simples, de fácil execução, em muitas ocasiões acontece a adoção de tecnologia de ponta, como alevinos de tilápias de qualidade genética, sanitária e nutricional, e rações adequadas para cada fase de crescimento dos peixes. Elementos-chave da piscicultura intensiva em tanques de alvenaria são utilizados, como decantador e filtro biológico. As produções vegetais procuram seguir as melhores recomendações disponíveis, entre  elas, a utilização de materiais genéticos adequados de milho, feijão, mandioca, batata-doce e verduras folhosas, além de práticas agrícolas ambientalmente amigáveis. Isso tudo em consonância com os saberes e as práticas tradicionais de cada local.

A operação do Sisteminha é inteiramente familiar e em pequenas áreas (1000 m2 ou até menores), ou seja, as atividades do quintal produtivo são dimensionadas e escalonadas com as devidas diversificações, para a alimentação de um grupo de quatro a cinco pessoas, que trabalha diariamente no trato com os peixes, outros animais e plantas. O acesso à alimentação está garantido, e itens mais difíceis de se produzir, como o arroz, podem ser trocados localmente com excedente do Sisteminha.

A relação do ser humano com a terra e o trabalho rural é fortalecida nas famílias, muitas delas chefiadas por mulheres. E uma vez que passam a produzir o próprio alimento, o sentimento de respeito e gratidão à natureza e seus ciclos elevam a autoestima de comunidades inteiras.

O Sisteminha começou a ser desenvolvido em 2001, na Universidade Federal de Uberlândia, e se espalhou como tecnologia social por todo o Brasil, beneficiando mais de 4.500 famílias, em 12 estados brasileiros, em especial a região Nordeste, recebendo diversos prêmios nacionais e internacionais. Uma vez estabelecida a segurança alimentar, ou seja, satisfeita a necessidade básica de alimentação das famílias, por meio da implementação da tecnologia, entra em ação um novo Programa, o “Sisteminha Comunidades”. A gestão coletiva e a troca de conhecimentos fortalecem o empreendedorismo comunitário, em que grupos diversos se unem para organizar a produção e comercialização para geração de renda e desenvolvimento social. Essa realidade já acontece em algumas comunidades do Piauí e Maranhão, com perspectivas de expansão para outras regiões como Norte e Centro-Oeste.

Em Mato Grosso do Sul, o Sisteminha chegou em 2024, onde estão sendo estimulados os trabalhos por recursos de Emenda Parlamentar para o fortalecimento da segurança alimentar e nutricional de comunidades indígenas, quilombolas e assentamentos rurais. As ações estão sendo executadas pela Embrapa Agropecuária Oeste, localizada no município de Dourados. Em soma, projetos aprovados na chamada “Fundect/SEMADESC/SEAF 12/2023 Extensão Tecnológica para Agricultores Familiares, Povos Originários e Comunidades Tradicionais” aportam materiais e equipes.

A tecnologia social Sisteminha Embrapa será apresentada na AgriZone, durante a COP30, em Belém, PA. E regionalmente,  acontecerá o “V Encontro Regional da Educação do Campo do Centro-Oeste – V ERECCO”, na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), em Dourados, MS. Uma oficina sobre o tema será realizada com a presença do idealizador da tecnologia, o pesquisador Luiz Carlos Guilherme (Embrapa Maranhão), em que serão apresentados os resultados preliminares do acordo de cooperação técnica entre Embrapa e a Faculdade Intercultural Indígena (FAIND), da UFGD, associada à perspectiva de utilização da tecnologia como ferramenta pedagógica pela FAIND.

O Sisteminha comprova que agricultura não é só dinheiro, mas sobretudo vida, dignidade e pertencimento. Ao integrar peixes, plantas e outros animais domésticos de forma sustentável,  proporciona a segurança alimentar, valoriza o trabalho familiar, resgata saberes tradicionais e promove a permanência das pessoas no campo com autonomia e esperança. Cultiva relações humanas e espirituais com a terra, despertando nas comunidades o sentimento de gratidão e de cuidado com a natureza, uma verdadeira transformação social que começa no quintal e se espalha por todo Brasil.

  • Luís Antônio Kioshi Aoki Inoue, Tarcila Souza de Castro Silva e Laurindo André Rodrigues são Pesquisadores da Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados, MS – agropecuaria-oeste.imprensa@embrapa.br

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