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19 de junho de 2013 às 08:18.

SP: 5 dias após repressão, polícia some das ruas e vândalos depredam

Polícia Militar levou quase três horas para chegar à prefeitura e conter a ação de uma minoria de vândalos, que depredaram prédios, saquearam lojas e deixaram rastro de destruição no centro de São Paulo

Bombas de gás, spray de pimenta e cassetetes dos policiais militares sumiram das ruas de São Paulo depois daquela quinta-feira, quando manifestantes e jornalistas foram reprimidos com violência em um protesto que seguia pacífico contra o aumento da passagem de ônibus. Cinco dias depois, um novo ato terminou, nesta terça-feira, marcado pela ação de uma minoria de vândalos que tentou invadir o prédio da prefeitura, queimou o veículo de transmissão de uma emissora de TV e causou revolta em quem queria protestar em paz.

O protesto começou por volta das 17h, na Praça da Sé, quando uma multidão seguiu de forma pacífica pelas ruas da região central. A situação ficou fora de controle quando um grupo de vândalos, que seguia na frente, passou a depredar o prédio da prefeitura. Percebendo a violência, manifestantes ligados ao Movimento Passe Livre (MPL) começaram a abandonar a mobilização e seguir para a avenida Paulista.

Durante quase três horas, o que se viu na região central da capital foi uma sucessão de depredações, saques em lojas, quebra-quebra. Os 50 mil homens e mulheres que caminhavam bradando palavras de ordem, deram lugar a uma minoria de cerca de 500 vândalos que se sentiram livres para destruir o que viam pela frente.

Eles começaram pelo prédio da prefeitura, onde uma equipe da Guarda Municipal e alguns policiais da força tática faziam a segurança. Um grupo que não queria que o movimento fosse manchado pela violência, tentou impedir a ação. “Sem violência, sem vandalismo”, gritavam os manifestantes, que faziam uma espécie de escudo humano para evitar que a prefeitura fosse invadida. Praticamente todos os vidros do primeiro andar foram quebrados. O prédio ainda foi pichado com a frase “R$ 3,20 não”, em alusão à tarifa do transporte público em São Paulo.

Os vândalos não conseguiram ocupar o prédio, mas botaram fogo na base da PM que fica junto à prefeitura, incendiaram o carro de transmissão da TV Record e agências do Itaú, além de invadir e saquear diversas lojas da região. Dois guardas da prefeitura ficaram feridos, um deles levou nove pontos na cabeça. Em todo esse tempo, não se viu um policial sequer intervindo para impedir a ação dos criminosos. O Theatro Municipal também sofreu uma tentativa de invasão, as paredes e os vitrais foram pichados e, segundo a direção do local, as cerca de 300 pessoas que assistiam a uma ópera ficaram assustadas ao deixar o teatro e ver o rastro de destruição.

Administrador de empresas, Daniel Vilhena, 35 anos, disse ao Terra que ficou preso no escritório onde trabalha, em frente à prefeitura, até as 21h30, quando se arriscou sair em meio à confusão. “Participei da manifestação ontem, foi super pacífico, mas hoje eu vi de camarote uma ação de depredação, de vandalismo mesmo”, lamentou. Ele ainda criticou a ausência da PM. “Onde estava a polícia? Parece que é oito ou 80, ou desce o cacete, ou fica ausente e deixa quebrarem tudo”.

Moradora do prédio do antigo hotel Othon, Marcela Bezerra do Nascimento, 25 anos, precisou sair às pressas de casa carregando o que conseguia nas mãos. No térreo da construção existe uma agência do Itaú que ficou completamente destruída após incêndio provocado pelos vândalos. “Estamos desesperados, agarrei meus filhos, peguei o documento, as roupas do bebê e fugi. Ninguém da polícia foi nos ajudar”, disse ela, que ficou com medo da fumaça que atingia o prédio de 25 andares, ocupado por moradores sem-teto.

A Força Tática chegou para tentar conter os manifestantes somente depois de três horas de depredação. O Batalhão de Choque precisou ser acionado às pressas. Eram 22h quando bombas de efeito moral começaram a ser disparadas na Praça do Patriarca. Saqueadores, que corriam com computadores nas mãos, foram detidos. “Parece que eu andei 14 quilômetros ontem por nada. Hoje perderam o controle”, disse um homem que se identificou apenas como Osmar. Ele fez referência à marcha pacífica do dia anterior, quando 65 mil pessoas caminharam pelas ruas da cidade.

Na Paulista, manifestantes fazem Carnaval

Enquanto se sucediam cenas de guerra em frente à prefeitura, na avenida Paulista o que se via era uma manifestação pacífica e bem organizada contra o aumento da passagem. O grupo, que também saiu da Praça da Sé, mas seguiu por outra rota, se concentrou no vão livre do Museu de Arte (Masp).

Cantando e dançando, a multidão fazia um “Carnaval” na região. “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, gritam os manifestantes reunidos na avenida, que chegou a ficar bloqueada nos dois sentidos durante a noite.

Apenas no final da noite houve confusão, quando a grande maioria dos manifestantes já havia se dispersado, e alguns vândalos seguiram até a altura da rua Augusta. Eles empilharam objetos e lixo para impedir o avanço da Tropa de Choque, que revidou com bombas de gás. Um painel da Coca-Cola em referência à Copa do Mundo foi destruído pelo grupo.

Secretaria diz que polícia não agiu para não prejudicar movimento

Após as cenas de guerra, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) disse que não interviu na tentativa de invasão ao prédio da prefeitura para não prejudicar a manifestação pacífica. “A pedido da prefeitura, a PM havia posicionado uma equipe da Força Tática no interior do prédio, mas avaliou que intervir em meio à multidão poderia prejudicar parte da maioria pacífica de manifestantes”, diz a nota enviada à imprensa na noite desta terça-feira.

Cenas de guerra nos protestos em SP

A cidade de São Paulo enfrenta protestos contra o aumento na tarifa do transporte público desde o dia 6 de junho. Manifestantes e policiais entraram em confronto em diferentes ocasiões e ruas do centro se transformaram em cenários de guerra. Enquanto policiais usavam bombas e tiros de bala de borracha, manifestantes respondiam com pedras e rojões.

Durante os atos, portas de agências bancárias e estabelecimentos comerciais foram quebrados, ônibus, muros e monumentos pichados e lixeiras incendiadas. Os manifestantes alegam que reagem à repressão opressiva da polícia, que age de maneira truculenta para tentar conter ou dispersar os protestos.

Segundo a administração pública, em quatro dias de manifestações mais de 250 pessoas foram presas, muitas sob acusação de depredação de patrimônio público e formação de quadrilha. No dia 13 de junho, bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela Polícia Militar na rua da Consolação deram início a uma sequência de atos violentos por parte das forças de segurança, que se espalharam pelo centro.

O cenário foi de caos: manifestantes e pessoas pegas de surpresa pelo protesto correndo para todos os lados tentando se proteger; motoristas e passageiros de ônibus inalando gás de pimenta sem ter como fugir em meio ao trânsito; e vários jornalistas, que cobriam o protesto, detidos, ameaçados ou agredidos.

No dia seguinte ao protesto marcado pela violência, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) declarou que via “ações coordenadas” oportunistas no movimento, reiterou “a defesa do direito de ir e vir” da população, mas garantiu que não permitirá que os manifestantes prejudiquem a circulação de veículos e pessoas. No mesmo dia, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), afirmou que a polícia deve ser investigada por abusos cometidos, mas não deixou de criticar a ação dos ativistas.

As agressões da polícia repercutiram negativamente na imprensa e também nas redes sociais. Vítimas e testemunhas da ação violenta divulgaram relatos, fotografias e vídeos na internet. A mobilização ultrapassou as fronteiras do País e ganhou as ruas de várias cidades do mundo. Dezenas de manifestações foram organizadas em outros países em apoio aos protestos em São Paulo e repúdio à ação violenta da Polícia Militar. Eventos foram marcados pelas redes sociais em quase 30 cidades da Europa, Estados Unidos e América Latina.

As passagens de ônibus, metrô e trem da cidade de São Paulo passaram a custar R$ 3,20 no dia 2 de junho. A tarifa anterior, de R$ 3, vigorava desde janeiro de 2011. Segundo a administração paulista, caso fosse feito o reajuste com base na inflação acumulada no período, aferido pelo IPC/Fipe, o valor chegaria a R$ 3,40. “O reajuste abaixo da inflação é um esforço da prefeitura para não onerar em excesso os passageiros”, disse em nota.

O prefeito da capital havia declarado que o reajuste poderia ser menor caso o Congresso aprovasse a desoneração do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) para o transporte público. A proposta foi aprovada, mas não houve manifestação da administração municipal sobre redução das tarifas. (Terra)

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