A maratona cinematográfica que anima anualmente o fim do inverno de Berlim, capital da Alemanha, acabou no último domingo (19). Este ano, a 62ª edição do famoso festival de cinema trouxe à cidade mais de 450 novos filmes de todo o mundo, reafirmando seu caráter político e o domínio europeu nos filmes em competição.

A congolesa Rachel Mwanza levou o prêmio de melhor atriz por sua atuação em 'Bruxa de Guerra' - Foto: Getty Images
Se, na mídia, as grandes estrelas do festival foram as americanas Angelina Jolie, que apresentou seu longa-metragem de estreia como diretora In the Land of Blood and Honey, e Meryl Streep, homenageada pelo conjunto da obra, quem realmente brilhou durante esses dez dias foi a seleção de grandes filmes.
Triunfo europeu
Os europeus brilharam na competição oficial da Berlinale neste ano. Filmes como o suíço Sister, de Ursula Meier, e o húngaro Just the Wind, de Bence Fliegauf, que tratavam de temas relevantes e atuais no continente, acabaram sendo premiados.
As grandes surpresas também foram os prêmios de Roteiro e Melhor Ator para Mikkel Boe Følsgraad, do drama dinamarquês A Royal Affair, e o prêmio de Melhor Atriz para a jovem Rachel Mwanza, por Bruxa de Guerra, filme canadense que mostra os horrores da guerra civil no Congo. Com três fortes nomes na competição, os alemães saíram da competição com o prêmio de Melhor Diretor para Christian Petzold, por Barbara. Favorito da crítica alemã, o drama político é um bom filme, mas não chega a ser extraordinário.
Apesar da surpreendente escolha, o Urso de Ouro dado aos irmãos Taviani por Cesare dever Morire não foi surpresa para a crítica internacional, que havia ovacionado o filme. Trata-se de um drama documental, que mostra um grupo de prisioneiros encenando Júlio César dentro de uma prisão de Roma, e fez justiça aos lendários irmãos italianos.
Captive, de Brillante Mendonza, era um dos favoritos ao prêmio, mas acabou não sendo lembrado. O drama, estrelado por Isabelle Huppert, é um dos mais poderosos filmes dos últimos anos, apesar do estilo ousado do filipino parecer, às vezes, gratuito.
Por fim, justiça foi feita com os dois prêmios para Tabu. O filme, do português Mario Gomes, é de um primor e criatividade inacreditáveis. Gomes constrói uma história de amor como uma teia, onde o passado e a história portuguesa se misturam com um amor quase amaldiçoado. Usando de ironia e firmeza, ele brinca com o cinema mudo de forma inovadora, sem nenhuma pretensão.
Panorama brasileiro
Os dois longas-metragens brasileiros participantes da Berlinale deste ano estavam na mostra Panorama, que tende a trazer filmes de cineastas consagrados, histórias políticas e tem um forte programa de documentários. Cao Hamburger voltou a Berlim com seu novo filme, Xingu, que conta a história dos irmãos Villas-Bôas, criadores do Parque Nacional do Xingu.
Apesar das belas imagens, o longa-metragem é previsível e correto. Por se tratar de uma história real, muito acontece e pouco se desenvolve, apenas ganhando força quando foca no drama familiar dos Villas-Bôas e na grande atuação de João Miguel. Xingu terminou em terceiro lugar na votação do público da Panorama.
O mais votado foi Parada, do sérvio Srdjan Dragojevic. Apesar de ser uma comédia simples e quase boba, o filme é um marco para a luta dos direitos gays no país, onde a violência contra homossexuais é um problema grave.
Entre os documentários da Panorama, o brasileiro Olhe para Mim Agora, dos cineastas Claudia Priscilla e Kiko Goifman, é imperdível. O filme, que se transformou como seu personagem principal, mostra a viagem do transexual Syllvio Luccio por sua história, através do sertão nordestino.
Também na Panorama, o vencedor do Teddy Awards, Keep the Lights On, do americano Ira Sacha, mostra o desenvolvimento de uma história de amor marcada pelo uso de drogas. Com algumas boas ideias e trilha sonora do genial Arthur Russell, o filme não empolga, e o grande amor mostrado na história realmente não convence.
Acertos na Forum
A mostra Forum trouxe à Berlinale filmes de cineastas menos conhecidos ou iniciantes, o que deu uma abertura maior ao cinema experimental. Por conta da proposta, talvez seja o programa mais difícil para se escolher o que assistir.
Marlon Rivera fez um divertido retrato da cena cinematográfica em ascensão nas Filipinas no despretensiosoThe Woman in the Spetic Tank. O filme confirma a boa safra, não apenas do país, mas do cinema asiático em geral, com fortes títulos vindos da Coréia do Sul e Indonésia.
Outra grande surpresa foi Avalon, do sueco Axel Petersén. Janne é um inconsequente senhor que está prestes a abrir um clube noturno em uma rica e elegante área no interior da Suécia. Apesar da idade, ele vive uma vida jovem com carros, festas, dinheiro e drogas.
A banalidade de seus atos acaba provocando um grave acidente, transformando o filme em um criativo e urgente suspense. Um olhar amoral sobre uma burguesia entediada e infantilizada, dando uma outra perspectiva da Europa atual.